terça-feira, 15 de novembro de 2016

A ciência está a evoluir para algo pouco confiável

Ciência corrompida
Não há escassez de avisos por parte da comunidade científica de que a ciência, tal como a conhecemos, está a ser drasticamente afetada pelas pressões comerciais e pelas pressões institucionais que são exercidas sobre os pesquisadores nas revistas científicas mais importantes. Agora uma nova simulação revelou que a deterioração está de fato a acontecer.

Para chamar atenção para a forma como bons cientistas são pressionados para publicar má ciência (leia-se “resultados surpreendentes e sensacionais”), pesquisadores dos Estados Unidos desenvolveram um modelo informático para simular o que acontece quando os cientistas competem por prestígio e por empregos.

Neste modelo, desenvolvido por pesquisadores da “University of California, Merced”, todos os grupos de laboratório que eles colocaram neste cenário eram honestos – eles não mentiram e nem falsificaram intencionalmente os resultados. Mas eles receberiam mais recompensas se publicassem dados “novos” – tal como acontece no mundo real. Eles tinham também que levar a cabo mais esforços como forma de serem rigorosos nos seus métodos – algo que iria aumentar a qualidade das suas pesquisas mas diminuir a sua produção acadêmica.

O pesquisador principal Paul Smaldino explicou ao The Conversation: Resultado: "Com o passar do tempo, os esforços diminuíram até ao seu valor mínimo, e a taxa de falsas descobertas aumentou."

Mais ainda, o modelo sugere que os “maus” cientistas (se se pode usar este termo) que tomam a via mais fácil em relação aos incentivos que estão à disposição acabam por transmitir os seus métodos à geração seguinte de cientistas que também trabalham nos seus laboratórios, gerando, para todos os efeitos, um enigma evolutivo que recebeu, por parte dos pesquisadores, o nome de “a seleção natural de má ciência”.

Smaldino disse o seguinte a Hannah Devlin do “The Guardian”: Enquanto existirem incentivos para resultados inovadores e surpreendentes, algo que se passa mais em algumas revistas de alto relevo do que noutras, aspectos mais  nuancizados da ciência, e práticas de má-qualidade que maximizam a habilidade individual de gerar tais resultados, irão existir de forma desenfreada.

Não é a primeira vez que ouvimos alegações desta natureza – embora seja bem provável que nenhum pesquisador tenha de fato calculado as coisas através duma simulação computacional. A ciência encontra-se numa espécie de cruzamento, e os pesquisadores estão a salientar o que eles chamam de “crise de reprodutibilidade”.

Isto ocorre, de modo efetivo, devido à publicação de “falsas descobertas” – resultados científicos difíceis de reproduzir e que são algo como ruído dentro dos dados científicos, mas que são escolhidos para publicação por parte dos cientistas das revistas científicas porque são novos, sensacionais e de alguma forma surpreendentes.

Este tipo de resultados cativa o nosso interesse humano devido à sua componente inovadora e chocante – mas eles arriscam-se a prejudicar a credibilidade da ciência, especialmente se os cientistas se sentem pressionados para embelezar os seus artigos de modo a que possam gerar este tipo de impressões.

Mas isto é um círculo vicioso visto que tais pesquisas espantosas geram imensa atenção e ajudam os pesquisadores a verem os seus artigos publicados, o que, por sua vez, os ajuda a obter financiamento da instituições para poderem continuar com as suas pesquisas. Smaldino escreve:

A evolução cultural da ciência de má qualidade em resposta aos incentivos para a publicação não requer uma estratégia, uma mentira ou esquemas conscientes por parte dos pesquisadores individuais. Sempre irão existir pesquisadores dedicados que usam métodos rigorosos e que se encontram vinculados à integridade científica. Mas enquanto os incentivos institucionais recompensarem os resultados novos e positivos, em detrimento do rigor, a taxa de má ciência irá, em média, aumentar.
E o problema é aumentado ainda mais com as medidas quantitativas criadas para avaliar a importância dos pesquisadores e dos seus artigos visto que este tipo de aferições, tal como o controverso valor-p, podem ser enganadores, gerando um rol de falsas impressões que, de forma geral, prejudicam a ciência.

Vince Walsh, da “University College London” no Reino Unido, e que não fez parte do estudo, afirma: Concordo que a pressão para publicar seja corrosiva e anti-intelectual. Os cientistas são humanos, e se as organizações são suficientemente burras para os avaliar com base nas dados de venda, eles irão fazer descontos como forma de atingir os objetivos, tal como acontece com qualquer outra pessoa envolvida nas vendas.

Dito isto, qual é a solução? Bem, não será fácil, mas Smaldino afirma que, ao nível institucional, temos que nos afastar da mentalidade de aferir os cientistas quantitativamente.

No seu artigo, os pesquisadores escrevem: Infelizmente, os custos a longo-prazo do uso métrica quantitativa simples para aferir o mérito do pesquisador são enormes. Se formos sérios nos esforços de garantir que a nossa ciência é, ao mesmo tempo, significativa e duplicável, temos que garantir que as nossas instituições incentivem este tipo de ciência.

Enquanto isso, estudos tais como este, que incidem uma luz crítica à ciência – estudos esses que são francamente “novos” e geradores de atenção em si mesmos – podem ajudar a manter as pessoas cientes do quão sério este assunto realmente é. Smaldino afirma:

Quanto mais pessoas cientes dos problemas que existem dentro da ciência, e pessoas dispostas a melhorar as instituições, existirem, mais cedo e mais facilmente ocorrerá a mudança institucional.

 Fonte: science alert via Darwnismo

Nota do blog Darwnismo: Enquanto que os cientificamente ignorantes atribuem à ciência uma aura de infalibilidade inexistente, as pessoas que se encontra dentro do mundo da ciência afirmam que este mundo, tal como toda a área sob influência humana, está corrompida. Lembrem-se disto sempre que alguém disser que a publicação de um artigo é sinal de rigor científico ou que a não publicação é sinal de falta do mesmo.

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