domingo, 5 de junho de 2016

Sputnik, darwinismo e a reescrita da história

Releitura enviesada da história
“Vocês sabem que a União Soviética saiu na frente dos Estados Unidos na corrida espacial, com o Sputnik, porque começou a ensinar Darwin desde cedo, na escola. Enquanto os Estados Unidos negava [sic] Darwin, inclusive tinha [sic] um deputado, que agora me foge o nome, fez uma campanha para desconstruir o pensamento cientifico de Darwin que, no entanto está cada vez mais vivo. Qual foi o resultado? A União Soviética saiu na frente na corrida espacial. Logo os Estados Unidos viu [sic] que perdeu [sic], e voltou [sic] a ensinar Darwin desde lá nos primórdios da escola” (vereador Leonel Brizola [PSOL-RJ]). Eu, sinceramente, desconheço quem começou a propagar essa associação totalmente desprovida de qualquer fundamento. A teoria evolutiva não tem qualquer relação com foguetes ou façanhas espaciais. Identifiquei, no entanto, que se trata de uma reescrita histórica aos moldes do ativismo ideológico: “Em nome desses ideais [marxistas] sacrificou-se, muitas vezes, a objetividade científica e a verdade histórica, criou-se, à margem da narração imparcial dos fatos, uma anti-história e uma ‘paraciência’” (José Arthur Rios, sociólogo).

Os Estados Unidos foram mal na corrida espacial pelo planejamento robusto, mas cuidadoso, que, entretanto, valorizava mais a vida humana, enquanto os soviéticos ocultavam seus acidentes e falhas. O programa americano era robusto, mais difícil que o soviético, e isso traria benefícios apenas uma década depois. Na verdade, a opção mais robusta resultou em fracassos simultâneos ao sucesso soviético (Vanguard vs. Sputnik). Ambos os projetos foram baseados nos desenvolvimentos de Wernher von Braun, um criacionista (que ironia, não?). Essa parte é excluída da história porque existe a necessidade de o foguete depender do ensino da evolução nas escolas, é claro.

A realidade é que os EUA perderam miseravelmente em número de façanhas. Enquanto os americanos contavam com seus cientistas e alemães para o projeto espacial e nuclear, os russos contavam com seus próprios cientistas, outros alemães e espiões em praticamente todos os projetos. Os americanos mantinham certa vigilância sobre homens como von Braun e até mesmo Oppenheimer (diretor do Projeto Manhattan).

Todos os meus amigos “sovieticofilos” sabem e conhecem a surra aplicada pelos russos que inclui (colando aqui só o que consta na Wiki)  primeiro míssil balístico intercontinental, o primeiro satélite artificial (1957), o primeiro animal no espaço (1957), o primeiro homem no espaço (1961), a primeira mulher no espaço, a primeira caminhada no espaço, o primeiro veículo a entrar em órbita solar (1959), o primeiro impacto na Lua (1959), a primeira imagem do lado escuro da Lua (1959), o primeiro pouso suave na Lua (1966), o primeiro satélite artificial da Lua (1966), o primeiro rover na Lua (1970), a primeira estação espacial, a primeira sonda interplanetária, entre outras coisas.

O que você aprendeu hoje? Três coisas:

1. Que, na verdade, essa narrativa é tendenciosa; o que houve foi uma oportunidade de se inserir a teoria no currículo (o que é justo visto que políticos não têm que decidir nada sobre isso).

2. Que, ironicamente, era um criacionista o cara que liderava o projeto espacial americano e já havia proposto em 1954 (três anos antes da Sputnik) seu trabalho que foi rejeitado. Por fim, liderou o projeto que em 16 de julho de 1969 levou o homem à Lua.

3. Que as características dessa narrativa”, repetida por aí, configuram ativismo sutil, o mais persuasivo e perigoso de todos. Isso tem raízes ideológicas da mesma natureza que o ativismo político.

Fonte: Junior D. Eskelsen, TDI Brasil

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