terça-feira, 7 de julho de 2015

A entrevista desastrosa do ateu Neil deGrasse Tyson

O animador de TV do cientificismo
 Na semana passada, o astrofísico Neil deGrasse Tyson concedeu entrevista à revista Veja. A peça tem como título “Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus”. Segundo Veja, “Neil deGrasse Tyson é um dos rostos mais conhecidos da ciência por saber traduzir, com graça e elegância, o intrincado linguajar de estudiosos”. A partir das palavras do próprio Tyson, veremos o que o entrevistador sabujo entende por “graça e elegância”. Os comentários entre colchetes são do amigo Marco Dourado. Veja afirma que o Dr. Tyson - como é chamado - se assume como herdeiro de Carl Sagan, astrofísico que popularizou a exploração espacial com o programa televisivo Cosmos, dos anos 80.

[Ao contrário do fictício vilão Jeremias do hit “Faroeste Caboclo”, do Legião Urbana, Carl Sagan não “organizou a Rockonha” (o consumo da erva e de outros bagulhos foi disseminado pelos campi com o apoio da pregação subversiva de remanescentes da Escola de Frankfurt radicados na América e em parceria com o lúmpen moral e cultural dos EUA, os beatniks). Mas, à semelhança de sua alma-gêmea narcótica, Sagan “fez (ou ainda vai fazer) todo mundo dançar”. Este breve ad hominem (abusivo, reconheço) é só pra fazer um paralelo entre o destino do homem decaído narrado pelo livro de Gênesis e o destino iminente da série Cosmos: “...do pó vieste, ao pó voltarás.”]

Não por acaso, é dele a reedição da série, que apresenta na Fox. Tyson é defensor ferrenho do método científico como a melhor forma de explicar a origem de tudo o que existe.

[É pelfeitamente compleensível que, para a questão das origens, o Dr. Tyson use um “pouquinho” (80%? 90%?) de pressupostos metafísicos indemonstráveis - que ele qualifica, confira abaixo, de “extremamente imaginativos”.]

Seu livro busca compreender a origem de tudo, seja a vida, seja o Universo. Por que esse tema é tão recorrente na ciência? Se queremos analisar uma laranja, por exemplo, podemos verificar que ela é redonda, tem gosto cítrico. Se na experiência de laboratório destruímos a fruta, basta buscar outro exemplar e o trabalho prossegue. Essa lógica, de estudar a existência vale para tudo, de organismos a estrelas. Mas e se decidirmos compreender a origem da laranja? Aí a situação se complica. Primeiro, é simples notar que ela vem de uma árvore. E de onde veio a árvore? De uma semente. E a semente? Mais complicação. Quando se pergunta sobre a origem de qualquer coisa, os questionamentos não param. Em dado momento, é inevitável chegarmos a esta indagação filosófica clássica: “Qual é a origem da vida?” Para responder a essa questão, é preciso elaborar argumentos cuidadosos, factíveis, mas extraordinariamente imaginativos. Por isso, tantas das mentes brilhantes da humanidade se dedicaram ao desafio.

[Alguma imaginação pode até ser necessária para alcançar o que está além da percepção imediata. Já uma quantidade “extraordinária” dela tende a levar o imaginante para bem longe da realidade. Se a imaginação não for corroborada por fatos e evidências, nada mais é que histeria. Já “as mentes brilhantes da humanidade” - que formularam leis e cujo currículo não se mede, como hoje em dia, por citações acadêmicas mas por uma única linha contendo uma equação inaugural de alguma área da ciência moderna - essas mentes em sua quase totalidade eram cristãs. Dr. Tyson deveria ler a versão original de Principia, de Newton, ou as anotações dos experimentos de Copérnico e Kepler.]

Diante da dificuldade de chegarmos à origem de tudo o que está aí, uma busca infindável, aparentemente eterna, não seria o caso de aceitar com mais naturalidade e compreensão as interpretações religiosas? A religião de cada um tira conclusões precipitadas sobre o funcionamento do Universo.

[Ao generalizar o termo “religião”, o Dr. Tyson desconsidera, talvez por ignorância, que foi justamente na Europa Cristã que se deu a chamada Revolução Científica Moderna, a partir do finalzinho do século 16 - outras culturas religiosas: chinesa, hindu, islâmica, persa etc. possuíam uma interpretação da realidade incompatível com a elaboração e o desenvolvimento do método científico moderno, o que não aconteceu entre os cristãos, dada sua compreensão ordeira do mundo a partir da Revelação sobre a identidade e a natureza de Deus expostas nas Escrituras Sagradas. Quanto às “conclusões precipitadas”, que o Dr. Tyson atribui genericamente às religiões, poderíamos citar o mito da geração espontânea, que ainda resiste, graças aos argumentos extraordinariamente imaginativos de ideólogos ateus.]

A ciência, no entanto, realiza medições capazes de mostrar que essas impressões são falsas. Até hoje as pessoas dizem “God bless you” (Deus te abençoe, em inglês) quando alguém espirra. Por quê? No passado, acreditava-se, para valer, que, quando isso ocorria, a alma saía do corpo e deixava a pessoa vulnerável a demônios.

[Tentando demonstrar que qualquer crença religiosa é essencialmente irracional, o Dr. Tyson recorre à falácia do espantalho ao citar uma superstição medieval absolutamente antibíblica. Alma é um termo ocidental (latim: anima, ae => vulgarismo espanhol arcaico: alima) mal empregado para tradução do termo hebraico nephesh, que ao longo de suas 754 ocorrências ao longo do Tanach (i.e., o Antigo Testamento) possui 45 acepções distintas, nenhuma delas sequer sugerindo o dualismo antropológico grego, o qual contrasta uma suposta entidade imaterial interagindo com o corpo físico, por ela supostamente habitado e animado. Essa superstição (o ditado pós-espirro, não o dualismo corpo/alma) veio a se tornar um hábito tradicional, usado até por cientistas que contribuíram individualmente para a Revolução Científica Moderna (muitíssimo além, diga-se, da contribuição de certos animadores de séries televisas).]

Um religioso pode ver o mundo dessa maneira. A ciência verifica que há bactérias que causaram o espirro, e ponto.

[Dois pontos: (1) Dr. Tyson, como todo cientificista tarimbado, atribui, por metonímia, ao termo “ciência” o status de um (ou melhor de O) Ente Categórico de Razão (que para cristãos e judeus é exclusivo do Deus YHWH). Como a “ciência” (por ser apenas um domínio de conhecimento) não diz, não faz, não afirma, não nega nem demonstra (pois esses verbos indicam pessoalidade), seus atributos todo-abrangentes - para não dizer divinos - são imputados por derivação de sentido aos seus representantes de carne e osso: os cientistas, tornando-os, assim, sacerdotes da religião secularista do cientificismo, da qual o Dr. Tyson ocupa atualmente o posto de João, o Batista. (2) Quem verificou a existência de bactérias foi Louis Pasteur, proponente da Lei da Biogênese - um dos pilares científicos da Biologia. Nessa época, devotos da confissão mística da Geração Espontânea (base do credo de cientificistas como o Dr. Tyson) apelidaram maldosamente o cristão Pasteur - um dos gigantes do século 19 que fundaram a Microbiologia - de “pseudocientista crente”. E ponto.] 

Um religioso pode aceitar as descobertas e passar a usar passagens de suas escrituras, a exemplo da Bíblia, como metáfora, fonte de inspiração. Ou entrar em conflito conosco.

[Dr. Tyson usa aqui a falácia do falso dilema. Sendo ele profeta (do grego prophetos: porta-voz) do cientificismo, o qual POSTULA ser a “ciência” a única forma de compreender a realidade, quem não se adequar aos dogmas de sua ideologia de vezo religioso entrará em “conflito” com ela - e conflito, aqui, implica retaliações, perseguições e inquisições, como veremos ao final. Vejamos agora o que o Dr. Tyson chama de “metáforas” extraídas da Bíblia (*) - convém notar que as afirmações abaixo não resultam de aplicações do moderno método científico (que nem existia naquela época), mas isso as torna especialmente desconcertantes, considerando-se que foram escrita por pessoas da chamada Idade do Bronze. Como o Dr. Tyson definiria essas... “metáforas”? Como “extraordinariamente imaginativas”?:

“Olha agora para o céu, e conta as estrelas, se as podes contar” (Gn 15:5). O que há de tão fantástico nesse texto em que Deus desafia Abraão a imaginar o número de seus descendentes? Hoje, nada. Mas, na época em que ele foi escrito por Moisés, estimava-se que houvesse 5.119 estrelas no céu. Até a invenção do primeiro telescópio, é possível que essa declaração bíblica tenha causado muita estranheza. Hoje se sabe que somente em nossa galáxia existem cerca de 100 bilhões de estrelas. Se multiplicarmos esse número pela quantidade estimada de galáxias no Universo (entre 40 e 100 bilhões), teremos uma vaga ideia da quantidade fabulosa de estrelas que há no Universo.

“Ele [Deus] estende o norte sobre o vazio; suspende a Terra sobre o nada” (Jó 26:7). Imagine dizer que a Terra está pairando sobre o nada, no vácuo espacial, para alguém no ano 1520 a.C., ou seja, há mais de 3.500 anos! Naqueles tempos, alguns egípcios achavam que a Terra estava apoiada sobre cinco colunas e outros admitiam que nosso planeta havia sido chocado de um grande “ovo cósmico” que possuía asas e voava. Os “estudos científicos” aceitos no Egito no tempo de Moisés, segundo recentes descobertas arqueológicas, davam conta de que, enquanto aquele enorme ovo voava, completou-se dentro da casca o processo de mitose e este mundo surgiu! Era a última novidade ensinada no Egito naqueles dias. Moisés estudou na “Universidade Federal do Egito”, no entanto, onde está, nos escritos mosaicos, a teoria de que a Terra apoiava-se em cinco colunas ou de que fora chocada de um enorme “ovo voador”?

“Ele [Deus] é o que está assentado sobre a redondeza da Terra” (Is 40:22). Esse é um texto curioso e cercado de polêmica. Estaria Isaías revelando que a Terra é um “globo”, como sugerem outras versões bíblicas, ou estaria apenas se referindo à impressão que se tem de que a Terra é circular? Difícil saber... Mas o que alguns fazem é acusar a Bíblia de ensinar que a Terra é plana.

“Quando regulou o peso do vento, e fixou a medida das águas” (Jó 28:25). O barômetro, instrumento usado para medir a pressão atmosférica, só foi inventado em 1643, pelo físico italiano Evangelista Torricelli (1608-1647). Entretanto, a Bíblia já declarava que o ar (ou o vento) tem peso, três mil anos antes de a ciência descobrir esse fato!

A Bíblia também traz muitas importantes noções de sanitarismo: “Todos os dias em que a praga estiver nele, será imundo; imundo está, habitará só; a sua habitação será fora do arraial” (Lv 13:46). Por centenas de anos a temida doença da lepra matou milhares de pessoas na Europa. A medicina da época não tinha como minimizar o fato. Como última opção, resolveu-se adotar o conceito de contágio apresentado no verso citado acima. Logo que as nações europeias observaram que a aplicação da quarentena pública trazia a lepra sob controle, aplicaram o mesmo princípio contra a peste negra. Os resultados foram igualmente surpreendentes e milhões de vidas foram salvas.

Doenças intestinais como a disenteria e a febre tifoide continuavam a levar muitas vidas. O costume geral era que o excremento fosse atirado nas ruas sujas, que não eram pavimentadas. As moscas se encarregavam de espalhar as doenças, matando milhões. Muitas vidas teriam sido salvas se as orientações de Deuteronômio 23:12 e 13, que são lições de sanitarismo básico, tivessem sido seguidas: “Também terás um lugar fora do arraial, para onde sairás. Entre os teus utensílios terás uma pá; e quando te assentares lá fora, então com ela cavarás e, virando-te, cobrirás os teus excrementos.” Rudolph Virchow, conhecido como o pai da patologia moderna, disse: “Moisés foi o maior higienista que o mundo já viu. Ensinou, em seus pontos essenciais, quase todos os princípios de higiene praticados hoje.”

O fato é que Moisés não aprendeu sobre “medicina preventiva” no Egito. Lá havia muito misticismo e alguns “tratamentos” e “remédios” administrados aos doentes eram bastante exóticos. A expectativa de vida no Antigo Egito não era muito alta, no entanto, quando os hebreus saíram de lá e passaram a viver como nômades no deserto, a duração da vida deles foi significativamente aumentada, sem contar o fato de que não mais ficaram doentes. Tudo fruto da proteção de Deus, sem dúvida, e da “medicina preventiva” ensinada por Ele a Moisés.

Outros textos bíblicos poderiam ser mencionados (como Amós 5:8, Jó 36:27, 28 e Eclesiastes 1:7, que falam do ciclo hidrológico).

(*) (Excertos do livro A História da Vida, do meu amigo, jornalista e mestre em teologia, Michelson Borges, com o qual  tive a honra e o prazer de colaborar, ainda que só um pouquinho)]

Há muitos, contudo, que souberam separar os tópicos, ver a religião como motivação moral, e a ciência como a forma de realmente explicar a natureza.

[Dr. Tyson insiste em enfiar o Cristianismo no balaio de gato das “religiões”, entre muitas das quais se encontram as crenças mais absurdas e as práticas mais monstruosas. Com essa generalização indevida, busca ele, por contraste, ganhar autoridade argumentativa para emplacar como ciência o que não passa de cientificismo.]

Exemplo contemporâneo é o geneticista Francis Collins, cristão e um dos intelectuais mais respeitados da atualidade. Ele tira sua base moral da Bíblia, mas jamais responderá a uma pergunta sobre a origem do Universo dizendo: “Bem, vamos verificar no Gênesis.”

[“No princípio criou Deus o céu e a terra” (Gn 1:1) bastou para o Dr. Collins, mas não basta para o Dr. Tyson. Como também não bastava para nenhuma das religiões não abrâmicas às quais ele tenta agregar o Cristianismo. Dr. Tyson ignora - talvez finja ignorar - que, à exceção do judaísmo, cristianismo e islamismo - nenhuma outra religião apresentava entre seus dogmas uma cosmogonia, mas apenas teogonias - eventos mitológicos através dos quais teriam nascido as divindades, que então teriam organizado o universo já existente (e portanto eterno) para só depois criar o homem, que invariavelmente possuía apenas finalidade servil e de pouca importância. Essa crença pagã de um universo eterno impregnou a mentalidade científica até o primeiro quarto do século 20; quando desabou, os cientificistas, em vez adotar alguma humildade, se tornaram cada vez mais intransigentes, mais dogmáticos e mais persecutórios.]

Os religiosos veem a aparente ordem do Universo, regida pelas leis da física, como prova de que há uma lógica superior organizando tudo... Sim, a natureza se repete, e por isso definimos regras, como a lei da gravidade. Mas é preciso tomar cuidado com essa abordagem.

[Entretanto, o Dr. Tyson evita tomar o cuidado que ele próprio recomenda. “Leis” são comportamentos regulares verificados ao longo da natureza. Entretanto, não temos como afirmar taxativamente que esses comportamentos são propriedades inerentes aos elementos ou eventos que as apresentam ou se são resultado da ação contínua de algum agente metafísico. Pela Navalha de Occam (pluritas non est ponenda sine necessitate), tendemos a buscar a explicação mais simples, ou seja, a primeira. Contudo, a Navalha não se afigura, per si, uma forma de validação. Nesse particular, lemos várias passagens nas Escrituras Sagradas afirmando ser a realidade (que abrange desde os aglomerados de galáxias até às partículas subatômicas) mantida pela graça e pelo trabalho mantenedor ininterrupto de Deus. Como a mente hebraica não distinguia a ação direta da ação permissiva de Deus (como é o caso do mal - físico ou moral), não podemos optar em definitivo pelas duas possibilidades.]

Ok, Deus então fez as leis da física, como já definia o filósofo Baruch Espinosa no século 17. Só que isso quer dizer que Ele ouve suas preces? Ou que ajuda religiosos a vencer guerras contra outros religiosos? Ou que Ele tem barba? Foi esse Deus que falou com Moisés? Se tudo isso for tomado como verdade, então podemos dizer que Deus deixa pessoas inocentes ser atropeladas na rua. Ele permite, portanto, que uma criança morra de leucemia. Ou ainda faz vista grossa diante de furacões e vulcões que matam milhões, incluindo jovens e humanitários.

[Para se esquivar de responder sobre a causa primeva da existência da realidade a partir de um início preciso (talvez há 13,5 bilhões de anos) e como essa realidade - tanto o Universo quanto a vida - depende do fino ajuste de milhares de propriedades e características que jamais poderiam apresentar variações além do irrisório, Dr. Tyson apela à falácia da distinção de emergência: dá um salto triplo carpado, passando da questão ontológica (a existência de um Deus planejador, organizador e mantenedor) para a questão teológica (as formas como Deus Se releva e atua na História). Vemos, daí, o entrevistador, Filipe Vilicic, se comportando como Cynara Menezes (a tal Socialista Morena) entrevistando Lula ou Dilma. Vergonha alheia.]

Para acreditar em Deus, é preciso levar tudo em conta.

[Pena que esse “tudo” do Sr. Tyson não inclua sua abissal - e intencional - ignorância teológica.]

Se Ele está por trás de tudo, é muito bom em matanças. Afinal, mais de 99,9% das espécies de seres vivos que passaram pela Terra foram extintas. Isso é o acaso da natureza? Ou é Deus? Seja qual for a resposta escolhida, é preciso assumi-la tanto para o lado belo como para o terrível.

[A única eficiência em matanças da parte de Deus, Dr. Tyson, foi, segundo revela Sua Palavra, assassinar Seu Unigênito com extremos inimagináveis de crueldade para que gente como o senhor tivesse a escolha de buscá-Lo ou de desperdiçar a vida aplicando a ela a navalha de Hanlon (já chegaremos lá). Responda, Dr. Tyson: O senhor faria isso com seu filho único apenas para salvar uma percentagem irrisória de micro-organismos que infectassem uma dentre milhões de Placas de Petri que o senhor cultivasse?]

O senhor acredita em Deus? Dediquei tempo para pesquisar listas de deuses na internet. Demora muitos minutos só para passar com o mouse, sem ler, por um compilado de divindades nas quais a humanidade acredita. São milhares! Quer dizer que a escolha de um desses deuses pressupõe, sem escapatória, a ilegitimidade de todos os outros?

[Respondendo primeira à última pergunta, legitimidade não significa autenticidade. Apesar disso, YHWH afirma não levar em conta os tempos de ignorância, mas julga as respostas individuais ante os apelos da terceira pessoa da Divindade à consciência; essas respostas, sim, serão inevitavelmente julgadas - isso significa que pagãos herdarão a vida eterna, ao contrário da pós-morte ironizada em um vídeo marreta do grupo Porta dos Fundos. Outra das formas da revelação divina é a própria natureza, que o Dr. Tyson insiste em atribuir ao acaso. Dr. Tyson também não diz quantas das divindades “pesquisadas” por ele apresentam uma teologia consistente a partir de uma revelação escrita, preservada milagrosamente ao longo de milênios e que convida o leitor a escrutiná-la pela própria experiência pessoal e também em comparação com diversas áreas do conhecimento humano. Imagine-se a seguinte experiência: um megabilionário, tentando encontrar um filho que ele não conheceu, oferece 50 bilhões de dólares ao rapaz desaparecido. Obviamente se apresentarão milhares, talvez milhões de aspirantes ao prêmio. Pela lógica tyseana, como todos os pretendentes não podem ser uma única e mesma pessoa, então não existe herdeiro - mesmo que o verdadeiro não tenha se apresentado junto com os demais. É estupefaciente como alguém com a lógica de Neil Tyson escape à desconstrução e à desmoralização, e, pior, ainda mantenha intocado seu status de “representante da ciência”.]

Esse conflito de ideias não é tranquilo, levou a muitas guerras.

[Segundo a Encyclopaedia of Wars (apud: http://goo.gl/g75GlU), 123 guerras, ou seja, apenas 6,98% das as guerras registradas de TODA a História são classificadas como religiosas. Delas, 66 foram iniciadas por nações islâmicas. Considerando haver um grupo religioso em específico responsável por metade dessas guerras (e retirando-o do quadro), teríamos o resto da “religião em geral” responsável por apenas 3,23% de todas as guerras ocorridas no globo. A evidência é conclusiva: a religião não é, como o Dr. Tyson deixa subentendido, a fonte principal de guerras. Não são, portanto, as religiões que levam às guerras, embora possam ser usadas como pretexto. O que leva à guerra é o gregarismo inerente aos homens, que se manifesta na disputa por recursos, seja pela sobrevivência seja para enriquecimento. Um caso típico é que na primeira metade do século 20 as guerras por expansão territorial/comercial ou para escravização de povos inteiros por tiranos domésticos matou mais gente que todas as guerras acumuladas de que se tem registro na História. Nenhuma delas foi por motivação religiosa - pelo menos não a religião convencional, de que o Dr. Tyson desdenha. As grandes matanças genocidas partiram de religiões ideológicas, todas fundadas no ateísmo e tendo como dogma exultante o cientificismo, que o Dr. Tyson promove à ciência. Eu associei anteriormente Neil Tyson à Navalha de Halon. Explico agora: trata-se de uma lei epigramática segundo a qual “nunca se deve atribuir à malícia o que pode ser adequadamente explicado como estupidez”. Adequando Hanlon a Dr. Tyson, diríamos: “Nunca atribua SOMENTE à malícia o que pode ser adequadamente explicado TAMBÉM como estupidez.”]

Indo além, debrucei-­me sobre o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristão. Quais são suas propriedades celebradas? A bondade, o poder absoluto e a onisciência. Visto quanto a natureza mata, quer dizer que Ele é assassino? Se sim, não é bondoso. Se não, Ele não é onisciente, ou todo-­poderoso.

[Dr. Tyson requenta, a seu modo, o Paradoxo de Epicuro, do qual o sujeito que o entrevista nem deve fazer ideia. Se Deus (no caso, “o Deus mais popular do Ocidente, o judaico-cristão”) é bom, onisciente e todo-poderoso, Ele não deveria permitir o mal; se permite, das duas, uma: ou não é bom ou não é onisciente nem todo-poderoso. Simples assim? Vejamos. O quanto será que o Dr. Tyson estudou das Escrituras Sagradas, Revelação do Deus judaico-cristão? Passando o mouse em uma “lista de deuses da internet”? O quanto sabe ele da história do Grande Conflito, iniciado no Céu e ora provisório e restrito à Terra? Entende ele as consequências inerentes de se possuir o livre-arbítrio? Sendo ele crente das teorias de Darwin, como pode definir o que é bom e o que é mal sem apelar a uma moralidade objetiva, que transcenda seus próprios interesses e idiossincrasias tanto como individuo quanto como integrante de uma espécie que luta, como as outras, pelas sobrevivência? Dr. Tyson, posto em um ringue de debates filosóficos, não sobreviveria à primeira pergunta.] 

Para mim, essas escolhas parecem randômicas. Não vejo evidências que corroborem a existência de Deus. Se há um terremoto, não é fúria divina. Geólogos avisaram que a área era vulnerável. Não adiantava rezar pelo Haiti. O terremoto que abalou o país recentemente ocorreria de qualquer jeito. Não me importo se acreditam em deuses. Só acho que quem segue essa linha cega não pode distribuir culpas por aí.

[Se o Dr. Tyson se recusa a identificar projetos inteligentes nas estruturas orgânicas e nos processos bioquímicos dos seres vivos (ainda que certamente considerasse evidência de vida extraterrestre inteligente um sinal espacial em quantidade e regularidade baseada em números-primos), como poderia exarar juízos de valor sobre Alguém que Se afirma infinito no tempo e no espaço? Com base em que Dr. Tyson pretende que as causas das catástrofes naturais só possam ser avaliadas e compreendidas a partir das capacidades cognitivas humanas e de métodos e instrumentos de pesquisa, ambos seguramente limitados? Pode ele taxativamente afirmar que não existem agentes metafísicos envolvidos, agentes que transcenderiam nossas limitações de percepção? Não, não se trata aqui de evocar o “deus das lacunas”, mas de questionar a presunção do Dr. Tyson quanto a não existirem lacunas - e é justamente disso que se trata a ideologia cientificista.]

O senhor utiliza frequentemente o termo “polícia do pensamento”.

É uma forma de definir a postura religiosa que ignora solenemente o pensamento científico? Quando emprego essa definição, é para falar das pessoas que tentam ter e exercer poder pela força de seus pensamentos. Ou seja, impondo o que todos podem, ou devem, acreditar. Essa é a “polícia”. Na ciência, não fazemos isso. A ciência é inimiga da “polícia do pensamento”.

[O entrevistador sabujo, caluniando os cristãos - obliquamente chamados por ele de “religiosos” - levanta a bola para Dr. Tyson cortar com uma inversão leninista (acuse-os de fazer o que você faz). Pena que o astrofísico estufou as próprias redes. Vejamos. Tirante o embuste maroto de extrapolar a definição de ciência como domínio de conhecimento restrito a iluminados como ele, o Dr. Tyson ao menos diz uma verdade: os que exercem a atividade científica - através do método científico, bem entendido - não deveriam cometer patrulhamento contra os que não concordam com suas pressuposições, suas hipóteses e suas conclusões. Já os sacerdotes do cientificismo não podem abrir mão de “policiar o pensamento” dissonante ou então suas fraudes e falácias desabam e derretem. Ora, no exercício de suas prerrogativas acadêmicas, pessoas que partilham os conceitos científicos do Dr. Tyson, principalmente no que se refere à origem do Universo e da vida, perseguem professores e pesquisadores, escalam leões-de-chácara ideológicos como peer-reviewers, cortam verbas e destroem carreiras. Então resta provado que o Dr. Tyson (e ele é somente um animador midiático falastrão) e muitos outros integram aquilo que o professor Enézio de Almeida Filho apelidou de Nomenklatura Científica. E aqui encerro, repassando um post dele, que pode ser lido aqui.]

2 comentários:

  1. Nossa, o fato de grandes buscadores do passado terem acreditado em um deus, não significa que este existe.
    Significa o quão grande a 'crença sem fundamento' foi enfiada em nossas mentes.

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    1. eu ia responder a isso, mas você sintetizou meu pensamento, valeu.

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