sábado, 14 de março de 2015

A mancada do CFBio e o fóssil do “primeiro humano”

Mandíbula encontrada na África
Mandíbula encontrada na África
[Meus comentários seguem entre colchetes e no fim do texto. – MB] No mesmo dia da notícia do que parece ser um relevante testemunho fóssil da evolução dos hominídeos, o CFBio (Conselho Federal de Biologia) caiu numa cilada que tem sido comum nas contestações aos opositores da seleção natural dos seres vivos [a tal notícia a que Tuffani se refere dá conta do achado de um pedaço de mandíbula e alguns dentes, que os evolucionistas já consideram um ancestral humano, embora o texto esteja carregado de suposições]. O deslize aconteceu na divulgação do conselho sobre seu ofício enviado ao Congresso Nacional ontem (quarta-feira, 4 mar), “repudiando veementemente” um projeto de lei obscurantista que pretende obrigar todas as escolas do país a ensinar o criacionismo, com sua interpretação bíblica literal sobre a criação do mundo, dos seres vivos e também do homem [essa frase não explica a questão toda e dá a impressão de que criacionistas não dispões de argumentos científicos para defender sua tese; na verdade, soa levemente fixista]. Ao criticar essa proposta apresentada em novembro do ano passado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), o CFBio conclamou os biólogos a também se manifestarem contra ela. Não tive acesso ao ofício enviado pelo conselho aos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Mas o que importa aqui é o seu comunicado, que certamente será muito mais conhecido.

Nesse informe do CFBio há um parágrafo que é uma terrível “casca de banana” no caminho de quem vier a usá-lo como argumento contra o projeto de lei do deputado criacionista. Na verdade – e eis o motivo de minha intransigência, que pode parecer mera implicância ou impertinência –, esse trecho toca em um ponto que tem sido habilmente explorado por certos contestadores do darwinismo muito articulados e sofisticados, diferentemente do parlamentar com sua indouta e anedótica proposta.

Entre esses opositores ao darwinismo mais articulados estão alguns integrantes da Sociedade Criacionista Brasileira e da Sociedade Brasileira do Design Inteligente, com os quais tenho mantido um debate cordial, mesmo com algumas boas provocações de vez em quando. Aliás, nem mesmo essas entidades apoiam a proposta desse infeliz projeto de lei (ver páginas dos links em seus nomes).

Acreditando que o CFBio teve nessa história a melhor das intenções, transcrevo a seguir o desastrado parágrafo desse seu comunicado:

“Ao contrário do que está exposto no PL 8099/2014, a Teoria da Evolução não é uma crença e, portanto, não tem nenhum fundamento dizer que ensinar evolução nas escolas é violar a liberdade de crença [se bem que, no que se refere à macroevolução, essa tese se aproxima mais da crença/filosofia do que da ciência empírica]. O evolucionismo se baseia em observações fundamentais e em pesquisas científicas que surgiram com experimentos devidamente comprovados [os experimentos e as observações se referem apenas basicamente à seleção natural e às mutações, com as quais os criacionistas também concordam, uma vez que ambas não explicam o aumento de complexidade nos seres vivos; o restante é ciência histórica, que não dispõe de evidências observacionais ou experimentais]. A evolução das espécies através da seleção natural não é uma teoria, mas uma coleção de fatos amplamente comprovados.” [Seleção natural explica a diversidade, não o aporte de informação genética necessária para haver aumento de complexidade. Infelizmente, quase nenhum evolucionista se dá ao trabalho de explicar que macroevolução é uma coisa – não científica – e diversificação de baixo nível é outra.]

Além de muito mal escrito [concordo] – pois se autocontradiz por se referir à “Teoria da Evolução” e depois negar que ela seja uma teoria – esse parágrafo está coalhado de precariedades cognitivas. A começar pela explicação com “uma coleção de fatos amplamente comprovados”. Isso serve para várias coisas que não são teorias científicas, como uma gravação em vídeo de uma competição esportiva ou um relatório do TSE sobre os resultados de uma eleição.

Mas o verdadeiro estrago está na última frase desse parágrafo. Em termos práticos, ou seja, no combate milimétrico que vem sendo travado na opinião pública contra o darwinismo – e que vem sendo enfrentado principalmente pelo empenho de uma minoria de estudiosos do evolucionismo mais atentos –, essa tentativa desastrada de explicação escorrega em uma das ciladas mais bem exploradas pelo aparato de divulgação criacionista. [Somente criacionistas mal informados se saem com esta: “A evolução é apenas uma teoria.”]

Ao negar, em vez de corrigir, a falaciosa afirmação de que “a evolução é só uma teoria”, até mesmo alguns cientistas acabam afirmando uma grande bobagem, a de que a teoria da evolução é cientificamente comprovada. É uma bobagem porque nenhuma teoria científica pode ser comprovada. E a exploração dessa bobagem tem feito sucesso. [...]

A evolução é uma teoria científica. Não encompridarei ainda mais a conversa com as definições disso, que são várias. Mas vale a pena ressaltar que as teorias científicas permitem, em seus campos de atuação específicos, fazer previsões de fenômenos e explicar aqueles que já são observados, conhecidos. [É bom lembrar que, às vezes, a teoria da evolução parece explicar tudo: se o macho é monogâmico, ele evoluiu para ser assim; se é promíscuo, evoluiu para ser assim; se o cérebro humano está aumentando, isso é evolução; se está diminuindo, isso é evolução; e por aí vai. O fato é que a teoria da evolução prevê o surgimento de novos planos corporais e órgãos funcionais em organismos menos complexos, mas isso não foi observado. O que se depreende do registro fóssil é pura especulação.] [...]

No momento não há questionamentos da evolução pela seleção natural que justifiquem sua substituição por outra teoria. [...] [O que há é teimosia da parte de seus defensores em admitir as insuficiências epistêmicas do modelo todo, e perceber que Darwin acertou no varejo, mas errou no atacado.]

Amplamente corroborada não só pelo registro fóssil com centenas de milhares de peças, mas também por novas gerações de bactérias que a cada dia surgem mais resistentes a antibióticos [novamente um exemplo de diversificação de baixo nível para tentar corroborar o modelo evolutivo] e ainda por tantos outros fenômenos previstos com base na seleção natural desde os tempos de Charles Darwin (1809-1882), a evolução tem todos os desafios, dúvidas e dificuldades que uma teoria científica deve ter, e não as certezas eternas do saber clamado pelo Eclesiastes. [É evidente que o Deus onisciente em que os criacionistas creem tem todas as respostas, mas Ele incentiva nas Escrituras o empreendimento intelectual e mesmo a “verdadeira ciência”, até porque, como prova disso, a ciência experimental nasceu justamente num contexto cristão, com crentes como Copérnico, Galileu e Newton.]

A evolução é, sim, uma teoria. E isso não a diminui, como querem criacionistas mal intencionados e como pensam cientistas equivocados. [Se a teoria da evolução fosse corretamente compreendida – e o criacionismo também – poderia, de fato, ser valorizada pelo que tem de bom, mas seus defensores extrapolam e maximizam tanto os dados que fica difícil defender seu ponto de vista, como ocorre no caso do recente achado do fóssil de “ancestral humano” na África. Veja mais detalhes abaixo.]

Fonte: Maurício Tuffani, Folha.com via criacionismo

Nota do blog criacionismo: De fato, o Maurício Tuffani tem um diferencial a seu favor: ele dialoga com mente aberta. É um evolucionista honesto e temos trocado algumas palavras cordiais ao longo dos anos. E ele tem razão em boa parte do que diz no artigo acima – o parágrafo do comunicado da CFBio é infeliz e o Marco Feliciano é mais infeliz ainda, com seu projeto tresloucado do qual os criacionistas bem informados discordam. Quanto ao tal fóssil encontrado na África, esse é outro típico exemplo de divulgação científica evolucionista ufanista. Note como o título da matéria da Folha afirma o fato:


 Depois, no segundo parágrafo, começa a admissão de que “pode ser” (parecem), e as suposições se repetem no texto:

Finalmente, a admissão de que outro achado semelhante trata-se de uma evidência “difícil de analisar”: [MB]

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