terça-feira, 31 de março de 2015

A primeira imagem de uma ligação de hidrogênio

Moléculas de 8-hidroxiquinoleína. Nas imagens à direita: C (carbono) = verde; H (hidrogênio) = branco; O (oxigênio) = vermelho e N (nitrogênio) = azul. As ligações hidrogênio são representadas por pontilhados. Estas moléculas, sobre uma superfície de cobre, podem ser encontradas ligadas por ligações hidrogênio à baixa temperatura. É o que se constata nas duas imagens à esquerda, feitas com um microscópio de força atômica.
Sem as ligações de hidrogênio (também conhecidas como pontes de hidrogênio), a água e o DNA perderiam um bom número de suas propriedades. Químicos e biólogos não podem, pois, deixar de se interessar pela performance de uma equipe de pesquisadores chineses que trabalham na área de nanotecnologia. Eles acabam de observar, no microscópio de força atômica, ligações entre moléculas. Com este tipo de instrumento, esta é a primeira vez! Leia a matéria completa aqui.

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sexta-feira, 27 de março de 2015

Ecos da separação

Problemas com a confiabilidade da datação atribuída à separação dos continentes. Assista e tire suas conclusões ....

domingo, 22 de março de 2015

Tudo tem uma solução, acredite!

É hora de enxergar o copo meio cheio. Não sejamos precipitados em relação aos nossos problemas, para tudo há solução. Feliz semana e firmeza nos estudos pessoal!
Fonte: Facebook via Conselho Regional de Química


quinta-feira, 19 de março de 2015

Pode uma universidade pública promover eventos ateísta?

Quando palestras ou eventos promovidos por acadêmicos, muita vezes qualificados, pesquisadores de renome nacional e/ou internacional, docentes de Universidades públicas, são promovidos em Universidades públicas, para discutir o Design Inteligente, uma teoria científica, ou o criacionismo científico, que busca na racionalidade da ciência razões para a sua fé, toda uma galera se levanta, majoritariamente de ateus e agnósticos, e faz uma forte campanha inquisitiva com ameaças e denúncias de uso de dinheiro público e de universidades LAICAS para a propagação de supostas "crenças religiosas". Sites e blogs notoriamente ateus divulgam opiniões de ateus que não raramente difamam os participantes acusando-os de "sem qualificação para falar de ciência" ou de desonestos e outros adjetivos pejorativos, e de não terem convidado o outro lado para o contra-ponto. E não se fartam até que o evento seja cancelado (veja aqui). Você certamente conhece alguns desses casos.

Emblemático portanto o evento anunciado nesse folder, um encontro de ateus (e agnósticos ateus) realizado em uma Universidade pública e com o apoio/patrocínio de uma Universidade pública, e com alguns palestrantes de reputação acadêmica difícil de averiguar mas certamente não superior aos de muitos das palestras e eventos censurados, e tendo como tema Evolução x Criacionismo. Ou seja, não queremos aqui promover nenhum tipo de censura, pois a TDI BRASIL defende o livre debate acadêmico de idéias e teorias, mas fica a pergunta:

Poderia então uma Universidade laica e pública apoiar/patrocinar e ceder seu auditório para a realização de um encontro de ateus que tem como parte de seu tema o Criacionismo enquanto esses mesmos ateus são vigorosamente contra eventos semelhantes quando promovidos por acadêmicos em Universidades públicas sobre o mesmo tema? Ateu criticar pode, Cientista teísta ou defensor da TDI apoiar não pode não? Seriam nossas Universidades públicas verdadeiramente laicas ou seriam elas na realidade ateias, e apoiariam - com recursos públicos recolhidos dos impostos de todos nós- só uma parte da sociedade restrita por uma posição filosófica e (a)teológica? Você responde.

Fonte: Facebook Congresso Brasileiro do Design Inteligente

sábado, 14 de março de 2015

Estudar é preciso...

"Dentro de todos e de cada um, está um tesouro, que é preciso estudar." (Noam Chomsky)

A mancada do CFBio e o fóssil do “primeiro humano”

Mandíbula encontrada na África
Mandíbula encontrada na África
[Meus comentários seguem entre colchetes e no fim do texto. – MB] No mesmo dia da notícia do que parece ser um relevante testemunho fóssil da evolução dos hominídeos, o CFBio (Conselho Federal de Biologia) caiu numa cilada que tem sido comum nas contestações aos opositores da seleção natural dos seres vivos [a tal notícia a que Tuffani se refere dá conta do achado de um pedaço de mandíbula e alguns dentes, que os evolucionistas já consideram um ancestral humano, embora o texto esteja carregado de suposições]. O deslize aconteceu na divulgação do conselho sobre seu ofício enviado ao Congresso Nacional ontem (quarta-feira, 4 mar), “repudiando veementemente” um projeto de lei obscurantista que pretende obrigar todas as escolas do país a ensinar o criacionismo, com sua interpretação bíblica literal sobre a criação do mundo, dos seres vivos e também do homem [essa frase não explica a questão toda e dá a impressão de que criacionistas não dispões de argumentos científicos para defender sua tese; na verdade, soa levemente fixista]. Ao criticar essa proposta apresentada em novembro do ano passado pelo deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP), o CFBio conclamou os biólogos a também se manifestarem contra ela. Não tive acesso ao ofício enviado pelo conselho aos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado. Mas o que importa aqui é o seu comunicado, que certamente será muito mais conhecido.

Nesse informe do CFBio há um parágrafo que é uma terrível “casca de banana” no caminho de quem vier a usá-lo como argumento contra o projeto de lei do deputado criacionista. Na verdade – e eis o motivo de minha intransigência, que pode parecer mera implicância ou impertinência –, esse trecho toca em um ponto que tem sido habilmente explorado por certos contestadores do darwinismo muito articulados e sofisticados, diferentemente do parlamentar com sua indouta e anedótica proposta.

Entre esses opositores ao darwinismo mais articulados estão alguns integrantes da Sociedade Criacionista Brasileira e da Sociedade Brasileira do Design Inteligente, com os quais tenho mantido um debate cordial, mesmo com algumas boas provocações de vez em quando. Aliás, nem mesmo essas entidades apoiam a proposta desse infeliz projeto de lei (ver páginas dos links em seus nomes).

Acreditando que o CFBio teve nessa história a melhor das intenções, transcrevo a seguir o desastrado parágrafo desse seu comunicado:

“Ao contrário do que está exposto no PL 8099/2014, a Teoria da Evolução não é uma crença e, portanto, não tem nenhum fundamento dizer que ensinar evolução nas escolas é violar a liberdade de crença [se bem que, no que se refere à macroevolução, essa tese se aproxima mais da crença/filosofia do que da ciência empírica]. O evolucionismo se baseia em observações fundamentais e em pesquisas científicas que surgiram com experimentos devidamente comprovados [os experimentos e as observações se referem apenas basicamente à seleção natural e às mutações, com as quais os criacionistas também concordam, uma vez que ambas não explicam o aumento de complexidade nos seres vivos; o restante é ciência histórica, que não dispõe de evidências observacionais ou experimentais]. A evolução das espécies através da seleção natural não é uma teoria, mas uma coleção de fatos amplamente comprovados.” [Seleção natural explica a diversidade, não o aporte de informação genética necessária para haver aumento de complexidade. Infelizmente, quase nenhum evolucionista se dá ao trabalho de explicar que macroevolução é uma coisa – não científica – e diversificação de baixo nível é outra.]

Além de muito mal escrito [concordo] – pois se autocontradiz por se referir à “Teoria da Evolução” e depois negar que ela seja uma teoria – esse parágrafo está coalhado de precariedades cognitivas. A começar pela explicação com “uma coleção de fatos amplamente comprovados”. Isso serve para várias coisas que não são teorias científicas, como uma gravação em vídeo de uma competição esportiva ou um relatório do TSE sobre os resultados de uma eleição.

Mas o verdadeiro estrago está na última frase desse parágrafo. Em termos práticos, ou seja, no combate milimétrico que vem sendo travado na opinião pública contra o darwinismo – e que vem sendo enfrentado principalmente pelo empenho de uma minoria de estudiosos do evolucionismo mais atentos –, essa tentativa desastrada de explicação escorrega em uma das ciladas mais bem exploradas pelo aparato de divulgação criacionista. [Somente criacionistas mal informados se saem com esta: “A evolução é apenas uma teoria.”]

Ao negar, em vez de corrigir, a falaciosa afirmação de que “a evolução é só uma teoria”, até mesmo alguns cientistas acabam afirmando uma grande bobagem, a de que a teoria da evolução é cientificamente comprovada. É uma bobagem porque nenhuma teoria científica pode ser comprovada. E a exploração dessa bobagem tem feito sucesso. [...]

A evolução é uma teoria científica. Não encompridarei ainda mais a conversa com as definições disso, que são várias. Mas vale a pena ressaltar que as teorias científicas permitem, em seus campos de atuação específicos, fazer previsões de fenômenos e explicar aqueles que já são observados, conhecidos. [É bom lembrar que, às vezes, a teoria da evolução parece explicar tudo: se o macho é monogâmico, ele evoluiu para ser assim; se é promíscuo, evoluiu para ser assim; se o cérebro humano está aumentando, isso é evolução; se está diminuindo, isso é evolução; e por aí vai. O fato é que a teoria da evolução prevê o surgimento de novos planos corporais e órgãos funcionais em organismos menos complexos, mas isso não foi observado. O que se depreende do registro fóssil é pura especulação.] [...]

No momento não há questionamentos da evolução pela seleção natural que justifiquem sua substituição por outra teoria. [...] [O que há é teimosia da parte de seus defensores em admitir as insuficiências epistêmicas do modelo todo, e perceber que Darwin acertou no varejo, mas errou no atacado.]

Amplamente corroborada não só pelo registro fóssil com centenas de milhares de peças, mas também por novas gerações de bactérias que a cada dia surgem mais resistentes a antibióticos [novamente um exemplo de diversificação de baixo nível para tentar corroborar o modelo evolutivo] e ainda por tantos outros fenômenos previstos com base na seleção natural desde os tempos de Charles Darwin (1809-1882), a evolução tem todos os desafios, dúvidas e dificuldades que uma teoria científica deve ter, e não as certezas eternas do saber clamado pelo Eclesiastes. [É evidente que o Deus onisciente em que os criacionistas creem tem todas as respostas, mas Ele incentiva nas Escrituras o empreendimento intelectual e mesmo a “verdadeira ciência”, até porque, como prova disso, a ciência experimental nasceu justamente num contexto cristão, com crentes como Copérnico, Galileu e Newton.]

A evolução é, sim, uma teoria. E isso não a diminui, como querem criacionistas mal intencionados e como pensam cientistas equivocados. [Se a teoria da evolução fosse corretamente compreendida – e o criacionismo também – poderia, de fato, ser valorizada pelo que tem de bom, mas seus defensores extrapolam e maximizam tanto os dados que fica difícil defender seu ponto de vista, como ocorre no caso do recente achado do fóssil de “ancestral humano” na África. Veja mais detalhes abaixo.]

Fonte: Maurício Tuffani, Folha.com via criacionismo

Nota do blog criacionismo: De fato, o Maurício Tuffani tem um diferencial a seu favor: ele dialoga com mente aberta. É um evolucionista honesto e temos trocado algumas palavras cordiais ao longo dos anos. E ele tem razão em boa parte do que diz no artigo acima – o parágrafo do comunicado da CFBio é infeliz e o Marco Feliciano é mais infeliz ainda, com seu projeto tresloucado do qual os criacionistas bem informados discordam. Quanto ao tal fóssil encontrado na África, esse é outro típico exemplo de divulgação científica evolucionista ufanista. Note como o título da matéria da Folha afirma o fato:


 Depois, no segundo parágrafo, começa a admissão de que “pode ser” (parecem), e as suposições se repetem no texto:

Finalmente, a admissão de que outro achado semelhante trata-se de uma evidência “difícil de analisar”: [MB]

domingo, 1 de março de 2015

Professor no Brasil perde 20% da aula com bagunça na classe, diz estudo

 Desenvolvimento Econômico (OCDE) aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo de aula acalmando os alunos e colocando a classe em ordem para poder ensinar. Além disso, o estudo aponta que 60% dos professores brasileiros ouvidos têm mais de 10% de alunos-problemas em sua sala de aula, o maior índice entre os países participantes do estudo.

A pesquisa Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning Internacional Survey, Talis, na sigla em inglês) ouviu professores de 33 países.

O estudo aponta que no Brasil o professor perde 20% do tempo para por a classe em ordem e acabar com a bagunça, 13% do tempo resolvendo problemas burocráticos e 67% dando conteúdo. É o país que onde o professor mais perde tempo de aula. A média dos países da OCDE é de 13% do tempo para acabar com a bagunça.

O estudo perguntou aos professores se eles têm mais ou menos de 10% de alunos problemáticos na classe. O Brasil teve 60% dos docentes apontando terem mais de 10% de estudantes problemáticos. Chile, México e Estados Unidos aparecem depois. Na outra ponta, Dinamarca, Croácia, Noruega e Japão têm menos relatos de professores sobre alunos com mau comportamento.

Os dados foram levantados em 2013 com alunos do ensino fundamental e ensino médio (alunos de 11 a 16 anos), mas um relatório sobre a questão de comportamento dos alunos foi divulgado este ano. No Brasil, 14.291 professores e 1.057 diretores de 1.070 escolas completaram o questionário da pequisa.

A pesquisa Talis coleta dados sobre o ambiente de aprendizagem e as condições de trabalho dos professores nas escolas de todo o mundo. O objetivo é fornecer informações que possam ser comparadas com outros países para que se defina políticas para o desenvolvimento da educação.

VEJA ALGUNS DADOS DA PESQUISA:

Tempo para por a classe em ordem
No Brasil o professor perde 20% do tempo para acalmar os alunos, dar broncas e colocar a classe em ordem. A média da OCDE é de 13%.

Aluno que chega atrasado
Este não chega a ser um grande problema em comparação a outros. O índice no Brasil é de 51,4%, menor que a média dos países, de 51,8%. Países mais desenvolvidos têm alunos que atrasam mais, como Finlândia (86,5%), Suécia (78,4% Holanda (75,7%), Estados Unidos (73,3%) e França (61,6%).

Falta às aulas
Também o Brasil está na média, com 38,4%. Suécia (67,2%), Finlândia (64%) e Canadá (61,8) têm números maiores. O menor índice é da República Checa (5,7%).

Vandalismo e roubo
O Brasil está em segundo lugar neste item, com 11,8% dos relatos dos professores, atrás do México, líder com 13,2% e à frente da Malásia, com 10,8%.

Intimidação verbal entre alunos
O Brasil lidera a pesquisa com 34,4% dos relatos de professores, seguido pela Suécia (30,7%) e Bélgica (30,7%).

Ferimentos em briga de alunos
O maior índice é do México (10,8%), seguido por Chipre (7,2%) e Finlândia (7%). O Brasil aparece em quarto com 6,7%.

Intimidação verbal de professores
O Brasil é primeiro lugar com 12,5%. Em seguida vem a Estônia (11%).

Uso e posse de drogas e/ou álcool
Nos relatos, o Brasil tem o mais índice (6,9%), seguido pelo Canadá (6%).

Formação do professor
A pesquisadora Gabriela Moriconi, da Fundação Carlos Chagas, participou do levantamento. Ela também fez pesquisas em Ontário, no Canadá, e na Inglaterra, e percebeu que a formação dos professores é melhor nestes países.

Ainda de acordo com o estudo, no Brasil, mais de 90% dos professores dos anos finais do ensino fundamental concluíram o ensino superior, mas cerca de 25% não fizeram curso de formação de professores. Em comparação, no Chile aproximadamente 9 entre 10 professores concluíram tais cursos, assim como quase todos os professores na Austrália e em Alberta (Canadá).

"No Brasil, por problemas de salários e outras atividades, se coloca um professor que não foi preparado para dar aquela disciplina. Além disso, a média no Brasil é de 31 alunos por classe, enquanto nos outros países é de 24 alunos", destaca Gabriela.

Segundo ela, é preciso criar um sistema de planejamento de políticas de apoio às escolas e aos professores para lidar com alunos que estão se desenvolvendo. "Todo mundo entende que na pré-adolescência os estudantes testam seus limites e estão aprendendo a ser autônomos", afirma a pesquisadora. "Antes de acharmos que nosso aluno é preciso ver que em outros países os estudantes têm muito apoio que no nosso não tem."

Em seu relatório, a pesquisadora conclui que "a construção de uma cultura escolar positiva pode ser uma forma de reduzir problemas de comportamento e absentismo, e, portanto, melhorar as condições de aprendizagem dos alunos". "Uma maneira de criar um ambiente mais positivo é envolver os alunos, pais e professores nas decisões da escola. Professores que trabalham em escolas com um maior nível de participação entre as partes interessadas têm menos relatos de alunos com problemas de comportamento em suas salas de aula."

Fonte: G1

Cinco mitos sobre a “Bíblia manipulada”


 É impressionante a quantidade de lendas urbanas, preconceito e desinformação que grassa por aí quando o assunto é a maneira como a Bíblia foi escrita, editada e transformada num cânone, ou seja, num conjunto (mais ou menos) fechado de livros adotado por muitas religiões como algo dotado de autoridade religiosa. Mas nada tema, mui gentil leitor – este post abordará (e desmontará) cinco grandes mitos sobre o tema e, espero, trará alguma luz ao debate. Vamos a eles?

Mito 1: a Bíblia que temos hoje foi “inventada” no Concílio de Niceia.

Nananinão, dileto leitor. O Primeiro Concílio de Niceia, realizado no ano 325 d.C. na cidade romana de mesmo nome (localizada na atual Turquia), foi uma grande reunião de bispos (cerca de 300) convocada pelo imperador Constantino. Seu principal tema foi a cristologia, ou seja, debates sobre a exata natureza de Jesus Cristo e sua relação com Deus Pai. O concílio deu o passo decisivo para definir que Jesus compartilhava da mesma natureza de Deus e existia desde o princípio dos tempos, não tendo sido “criado” em qualquer sentido ordinário. A agenda do concílio incluía várias questões menores, como a data correta da celebração da Páscoa cristã. Mas em NENHUM momento incluiu discussões sobre os livros que deveriam ou não ser incluídos na Bíblia. Repito: esse tema simplesmente NÃO foi debatido em Niceia. Mito puro, portanto. [...]

Mito 2: ao longo dos séculos, a Bíblia foi constantemente manipulada e alterada. Não fazemos a menor ideia de quais eram os textos originais.
Esse mito é mais complicado porque contém alguns elementos de verdade. Vamos examinar a questão, pensando primeiro no cânone judaico (o nosso Antigo Testamento) e depois no cânone cristão. Primeiro, o fato é que a tradição de manuscritos do Antigo Testamento é muito antiga e bastante bem documentada. Os famosos Manuscritos do Mar Morto, achados na Cisjordânia nos anos 1940 e 1950, remontam até o século 2º a.C., em alguns casos, e vão até o século 1º da Era Cristã, ou seja, têm cerca de 2.000 anos de idade. A maior parte desses manuscritos corresponde a trechos de quase todos os livros da Bíblia hebraica, ou Tanakh, como também é conhecida – só não há na coleção trechos do livro de Ester.

Tem variação quando comparamos os textos bíblicos dos Manuscritos do Mar Morto com os textos hebraicos preservados pela comunidade judaica, os chamados textos massoréticos, que datam do século 9º d.C.? Tem variação sim, e considerável – trechinhos a mais ou a menos, trocas de letras, confusões de significado, etc. Isso é especialmente verdade em textos de natureza poética, que possuem vocabulário mais complexo e de difícil interpretação. Mas há relativamente pouca coisa que tenha algum significado teológico ou histórico muito importante nessa variação. [...]

Resumindo: no caso do Antigo Testamento, apesar das muitas variantes, estamos falando de uma tradição de manuscritos que manteve considerável estabilidade ao longo de muitos séculos. Não há sinal de nenhuma conspiração para manipular em larga escala o conteúdo desses textos. No geral, os antigos judeus (e samaritanos) parecem ter respeitado o conteúdo tradicional de tais textos.

E no caso do Novo Testamento? Bem, os mais antigos fragmentos em grego desses livros que chegaram até nós são do começo do século 2º d.C. – cerca de um século, portanto, depois da morte de Jesus. Mas textos maiores só aparecem no século 3º d.C. O consenso entre os historiadores, no entanto, é que a maior parte do Novo Testamento foi escrita bem antes, entre 65 d.C. e 100 d.C. Mais uma vez, existem variantes? Sim, centenas de milhares, mas a grande maioria delas não tem grande significado. [...] No geral, porém, vale o mesmo que dizemos sobre o Antigo Testamento: quando comparamos todos os manuscritos que chegaram até nós, não há sinais de manipulações de larga escala dos textos.

O importante aqui, eu acho, é pensar no contexto e na maneira como funcionavam as tradições religiosas na Antiguidade. Os textos que acabaram compondo o cânone da Bíblia já circulavam e eram venerados havia séculos quando o cristianismo se consolidou. Eram lidos, comentados, estudados e muito bem conhecidos. Alterá-los totalmente provocaria muitas brigas e não serviria a grandes propósitos. [...]

Mito 3: os Manuscritos do Mar Morto contêm evangelhos apócrifos que revelam verdades chocantes sobre Jesus.

Esse mito é fácil de derrubar, em contraposição ao anterior. Não há NENHUM texto cristão em meio a esses manuscritos, gente. A única relevância deles para o estudo do Jesus histórico é o fato de que eles nos ajudam a entender como era o judaísmo na época em que Cristo viveu. Fora isso, nada.

Mito 4: os evangelhos apócrifos são uma fonte mais confiável sobre a figura histórica de Jesus do que os que foram incluídos na Bíblia.
Outro mito que vai ao chão com relativa facilidade. Hoje, quase todos os historiadores concordam que é preciso ler com muito cuidado os Evangelhos canônicos – Mateus, Marcos, Lucas e João – se a ideia é buscar informações historicamente confiáveis, porque o interesse dos evangelistas era fazer teologia, e não história no sentido moderno. Mas, e esse é um grande mas, a maioria dos historiadores também concorda que, se esses textos têm problemas do ponto de vista histórico, os evangelhos apócrifos, ou seja, não incluídos na Bíblia, são ainda mais problemáticos, em geral. Isso porque tais textos foram, em geral, escritos bem depois dos Evangelhos canônicos e estão cheios de material lendário e especulações teológicas ainda mais ousadas do que os textos presentes na Bíblia. São quase “fan-fic” – aqueles textos escritos por fãs de um livro ou de um filme usando personagens criados por outra pessoa em suas próprias histórias. [...]

Mito 5: as Bíblias católicas e ortodoxas incluem textos apócrifos que não fazem parte do cânone “correto” do Antigo Testamento.

Esse é outro mito com nuances, como o mito 2. De fato, o que a Bíblia das igrejas protestantes inclui em seu Antigo Testamento é um conjunto de livros exclusivamente traduzidos do hebraico para as línguas modernas. São os mesmos livros incluídos pelos judeus atuais em seu Tanakh desde mais ou menos o ano 100 d.C. As Bíblias católicas e ortodoxas incluem ainda outros livros, como Judite, Sabedoria e Eclesiástico, que foram traduzidos do grego e a respeito dos quais se acreditava que tinham sido escritos originalmente em grego e/ou nunca teriam feito parte do cânone de qualquer grupo judaico.

Acontece, porém, que na época de Jesus o cânone judaico ainda estava “semiaberto”, e ao menos alguns grupos de judeus parecem, sim, ter considerado que tais livros eram canônicos. Trechos do Eclesiástico, por exemplo, foram achados entre os Manuscritos do Mar Morto, e em hebraico. A mesma coisa vale para o livro de Tobias – trechos em hebraico e aramaico também constam da “coleção” do Mar Morto. Isso significa que esses livros “devem” fazer parte do cânone? Depende. É claro que, no fundo, essa é uma discussão cultural e teológica. Mas o que claramente não funciona muito é dizer que o judaísmo nunca aceitou esses livros como parte das Escrituras – em alguns casos, essa informação parece não proceder.

Fonte:
Reinaldo José Lopes, Darwin e Deus)

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