sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Campeã do ENEM é, ao mesmo tempo, a escola 1 e a escola 569 do Brasil

 A escola que se auto intitula a primeira no ENEM é, ao mesmo tempo, a escola 1 e a escola 569 no ranking que a imprensa faz com os resultados do ENEM. Como pode isto? E faz 5 anos que a escola usa do mesmo expediente e ninguém toma nenhuma providência.

Não, isto não é exclusividade desta escola. No Brasil todo temos centenas de escolas que trabalham com a regra na mão para tentar parecer que é melhor escola e depois divulgar, em propagandas, que é a melhor escola do país, do estado, da região, da cidade e, em cidades grandes, como várias capitais, até mesmo que é a melhor escola de um determinado bairro.
Uma curiosidade é que a ‘primeira’ colocada no ENEM não aprovaria, se consideramos que seus cerca de 40 selecionados alunos tivessem a nota média divulgada no ENEM, NENHUM aluno para o curso de Medicina nas Federais mais tradicionais do Sudeste. E, pior, a escola verdadeira, aquela que faz a captação dos alunos que mais gabaritam em simulados, não aprovaria ninguém (se considerarmos que todos tivessem a média divulgada para a escola) em nenhum curso muito ou mediamente concorrido. Eles ficariam com nota média um pouco menor que 624, o que significa um pouco mais de um desvio padrão em relação ao aluno médio nacional, o que é um desastre pedagógico se consideramos as condições sócio econômicas dos alunos e o valor de sua mensalidade (superior a dois mil reais).

Antes de explicar a “receita” para alcançar os primeiros lugares nestas divulgações já digo, de antemão, que não adianta o MEC simplesmente falar que ele não faz não divulga ranking, que quem faz isto é a imprensa. Pode até ser que hoje seja assim, mas algumas vezes, em anos anteriores, o MEC tinha ferramentas, em seu site, que classificava as escolas por ordem de nota, igual ao que fazemos com uma tabela de Excel.

A receita é simples para uma escola estar entre as primeiras colocadas: Tenha uma mensalidade alta (famílias de maior capital econômico tendem a ter maior capital cultural), selecione seus alunos por prova e/ou entrevistas (assim sua ‘escola’ já irá iniciar o ensino médio com os alunos que tendem a acertar mais questões do tipo ENEM/Vestibular), separe os alunos que acertam mais questões nos simulados e matricule-os em outro CNPJ, com nome parecido ao da sua escola principal e distribua bolsas para os alunos de outras escolas que acertam muitas questões em seus simulados abertos, mesmo que a família tenha plenas condições de pagar pelo curso (mas se o aluno não tiver condições econômicas de frequentar a sua escola você pode até ‘pagar’ para que ele esteja entre seus matriculados). Por fim não admita, em nenhuma hipótese, que alunos de inclusão, com necessidades especiais, estejam na escola que você deseja que apareça bem no ENEM. Depois disto é só correr pra galera e inundar a sociedade da informação de que sua escola é a melhor do país, ou do Estado, ou da Grande Salvador, ou da Zona Norte ou até mesmo do bairro de Santana.

Todas as escolas nas primeiras colocações no ENEM usam um ou mais destes expedientes que citei. Tem algumas que usam todos. Até as públicas melhores colocadas usam de um deste expediente (elas selecionam os alunos com prova que chamam de ‘vestibulinho’. Já começam o primeiro ano com quem, entre seus inscritos, acertam mais questões. Boa parte de seus alunos são provenientes de famílias de boas condições econômicas e/ou cultural).

O que é fundamental entender é, que do jeito que analisamos as notas do ENEM, que na média nacional são muito baixas para todas as escolas, tanto publicas como particulares (é bom explicar que 600 não é 60%, e 700 não é 70%, a nota do ENEM é dada em uma escala de desvio padrão) só conseguimos descobrir onde estão os alunos de melhores condições sócio econômicas. Só isto.

Qualquer média, nas quatro provas objetivas, abaixo de 700 (700 é algo, para 2013, entre 80 e 90 acertos) é muito baixa para escolas particulares e uma nota abaixo de 600 (600 foi, para 2013, um pouco mais ou pouco menos de 60 acertos nas 180 questões) demonstra que os três anos de ensino médio serviram para quase nada na formação do aluno. A média 600, nas quatro provas objetivas já é um desastre total na formação do aluno. A média 500, que é a nota do aluno mediano (o aluno do meio na escala de notas), é um desastre ainda maior, e metade dos alunos que estavam no terceiro ano e fizeram o ENEM ficaram com nota menor que 500. Lembro que, como a nota é dada em desvio padrão, de média 500 e desvio 100, o aluno nunca zera, mesmo que erre todas as questões.
E há solução para isto, para que indicador seja mais claro e objetivo, tenha função pedagógica e não seja instrumento de propaganda de algumas escolas mal intencionadas? Sim, claro que há. Primeiro é obvio que ter algum indicador é milhares de vezes melhor do que não ter nenhum. Quem estuda indicadores de educação, como eu, tem agora dados que antes só sabíamos pelas experiências de outros países ou pela intuição do trabalho de campo. Mas estes indicadores foram jogados ao país sem maiores explicações e apoderados pelas escolas e pelos sistemas de ensino que (pelo menos os que usam destes expedientes para se ‘aproveitar’ dos resultados do ENEM por escola) estão muito pouco preocupados com o desenvolvimento da Educação e com as reformas necessárias para que o Ensino Médio seja de fato uma porta de oportunidades com menor diferenças para ricos e pobres.

O ENEM, como avaliador do ensino médio, precisa criar mecanismos para que a sociedade possa olhar para uma escola e saber o que de fato ela acrescentou ao aluno. E a única forma de saber isto é saber ‘onde ele estava’ quando entrou no ensino médio e ‘aonde ele chegou’ quando saiu dele. Ai todos nós saberemos se o método, o material, os professores, a estrutura e tudo mais ao redor do aluno, na escola, colaboraram para sua formação no ensino médio ou se ela foi tão somente fruto de seu amadurecimento, de sua estrutura familiar e de sua convivência em sociedade.

A nota, das escolas, tem que ser dada à diferença entre onde ela recebeu a turma e até onde ela caminhou com ela. E não tem jeito, a única forma de fazer isto é criar um exame no fim do nono ano do ensino fundamental para que os alunos façam e tenham seus resultados comparados com o que tiverem no ENEM. E este exame precisa ter alguma coisa que com poder de incentivo suficiente para atrair a maior parte dos alunos brasileiros a realiza-lo e de estudar para ele. O ENEM tem algum tipo de incentivo a isto, mas ele não é absoluto. Milhões de pessoas que estão no ensino médio, mas não acreditam na perspectiva, de fato, de passar em Uma Universidade Pública, não chegam nem a fazer a inscrição para o ENEM, se fazem deixam de comparecer nos dias do exame ou simplesmente ‘abandonam’ a prova pela metade em um ou nos dois dias de Prova (isto acontece principalmente em Matemática, a última prova, no caderno de provas, do segundo dia do exame).

Fonte: Estadão

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