quinta-feira, 22 de maio de 2014

Banquetes de migalhas

 Vivemos em um período singular na história da ciência. Por um lado, a ciência alcança um sucesso extraordinário, na (bio)química, física, medicina, farmácia, computação e tantas outras áreas. Talvez por todo esse sucesso e o merecido prestígio que ele nos trouxe, tenhamos nos esquecido dos limites de nossa ciência, e um ufanismo tomou conta de nós, e uma nova “religião” se consolidou – o cientificismo – e ganha mais e mais adeptos, dentro e fora da ciência. E nós ficamos cada vez mais empolgados e fascinamos com os “superpoderes” que cremos nossa ciência possui! E nessa empolgação nos perdemos e, por outro lado, prestamos um grande desserviço à humanidade.

Temos hoje uma fé absoluta na perfeição da ciência naturalista. Cremos que somente ela tem poder para solucionar os males da humanidade; que vencerá a morte e as doenças (alguns até se congelam a espera disso), eliminará o ódio ao banir as religiões e trará explicações concretas para tudo, desde a origem dos raios até a piedade de Madre Tereza de Calcutá.

A ciência naturalista se tornou tão absoluta e tão “todo-poderosa”, que cientistas são hoje seres inquestionáveis. Teólogos e filósofos foram deixados de lado, e os cientistas têm a palavra certa, final e definitiva. Assim, a ciência tem hoje o monopólio da razão. O resto é especulação, delírio, fanatismo, ignorância medieval e obscurantista, e qualquer um que se oponha a essa tendência é logo colado a esses mesmos adjetivos. Essa atitude de onipotência da ciência também é apoiada fortemente pela mídia em geral, disseminando o status da ciência de um absolutismo amplo, geral e irrestrito: esse monopólio absoluto da razão! É tanto o fascínio exacerbado pela ciência que expectativas ufanistas de avanços científicos são feitas sem o menor pudor. Outro dia previram, em nome da ciência e em um congresso científico, que ela nos fará imortais já em 2048!

Duas reportagens recentes produzidas pelo “Mensageiro Sideral” da Folha de S. Paulo forneceram exemplos claros desse ufanismo, em particular quanto à questão maior: a de nossas origens, da vida e do Universo. Em um clima claro de empolgação, o jornalista “científico” da Folha propagou em seu blog uma matéria com um título bombástico: “Momento histórico: encontramos outra Terra no Universo”. Lá, lemos que esse anúncio foi feito “com toda pompa e circunstância”, num artigo publicado no maior de todos os periódicos científicos: a Science. E a empolgação pelo “achado histórico” continua com uma previsão certamente utópica, mas apresentada como uma certeza absoluta: “Nosso planeta está prestes a ganhar muitas companhias.”

Mas onde estaria o ufanismo? E por que encontrar outra “Terra” seria um momento histórico? E por que alguns esperam por esse achado com tanta ansiedade e se empolgam tanto na expectativa de tê-lo testemunhado? A resposta, acredito, se encontra no “princípio da mediocridade” de Carl Sagan. Em sua série “Cosmos”, e ao contemplar a foto do planeta Terra tirada a distancia pela Voyager, Sagan profetizou: “Veja que planeta insignificante em que vivemos, e veja como nós humanos somos também insignificantes, pois habitamos um ponto pálido azul (a Terra) perdido na imensidão do Universo.” Ou seja, segundo esse “princípio” que norteia hoje a lógica da ciência naturalista, não há nada de especial em nós nem na Terra, e assim como o nosso planeta, deve haver milhares e milhares de outros planetas. E como nós, deve haver em nossa galáxia milhares e milhares de outras civilizações. É só esperar, vamos encontrá-los! Vamos então à busca dos ETs!

Nada de especial em nós e na Terra, pois somos “um entre milhões”. Catequizando assim gerações e gerações de nossos jovens, a série “Cosmos” expos uma ciência naturalista onipotente, onisciente e onipresente, e um Universo dominado pelas forças naturais: matéria, energia e espaço, e nada mais! Somando com as ideias de Darwin, Sagan ajudou a consolidar a religião do “cientificismo” e a formar todo um exército de “adoradores da ciência”: os “discípulos de Sagan”. Esses são os que hoje se encontram em nossas universidades e academias, e em jornais e revistas. Essa galera, então, adotando o princípio da mediocridade dos homens e da Terra, tem como certo que essa ciência “superpoderosa” os levará em breve à confirmação das “profecias” de seus profetas e ao achado de outras Terras e, nelas, outras civilizações. Com base nesse mesmo princípio, o programa SETI foi lançado para “escutar ET”, e junto com a NASA há décadas gasta milhões e milhões de dólares à procura do ET e de “outras Terras”. E precisa, então, desesperadamente, achá-los!

Mas será que o achado dessa “outra Terra” – o planeta Kepler 186f – foi mesmo importante e histórico? Lendo a reportagem, vemos claramente o quê? Que não! Foi encontrado só um “mero planetinha”, o qual de Terra só tem o quê? Duas coisinhas: (a) um diâmetro parecido, 1,1 vez maior; e (b) orbita seu sol, este com apenas a metade do tamanho do nosso, com uma distância apropriada para que a água, se lá existir, seja líquida.

Só isso, gente? Sim, só! Duas míseras similaridades! Então, alguém pode chamar isso de “Terra”? Pode? Alguém teria direito ou qualquer justificativa de proceder assim? É claro que não! Só os “discípulos de Sagan” se atreveriam a fazê-lo. Só quem conta com nossa ignorância sobre o que a Terra é – e o que a vida nela requer – se atreveria a propor um título ufanista e bombástico assim. Pois, para um planeta ser comparado ao nosso e ser chamado de “outra Terra”, teria que ter pelo menos algumas dezenas das milhares de condições únicas e indispensáveis da nossa Terra – esse, sim, um planetão com P, e um P bem maiúsculo –, que permitem que ela sustente vida, a minha e a sua!

O Kepler 186f, se rochoso, foi um dia incandescente, e esfriou, portanto, um cinturão de blocos de gelo – como o de Kuiper – deveria também ter sido achado lá no sistema planetário dele. E um planeta como Júpiter, com as dimensões proporcionais de nosso Júpiter, deveria estar por lá para ter desviado esses blocos de gelo e tê-los atirado no Kepler 186f, como se “imagina” que o “São Júpiter” fez um dia com a Terra. E mais ainda: guardiões planetários como Júpiter, Saturno e Marte deveriam estar lá também para proteger o planeta e a vida nele do bombardeiro de asteroides e cometas. Mais ainda: água parada não sustenta vida – só favorece a dengue –, e aí então uma lua como a nossa, na proporção correta e no diâmetro e massas corretos. Ela deveria lá orbitar também o Kepler 186f para criar o movimento de precessão – com o ângulo correto – para formar, em seus mares, se lá existirem, as marés corretas – e não tsunamis – que viabilizariam a vida naquela “nova Terra”.

Mais ainda: a gravidade deveria ser finamente ajustada naquele planeta para que ele pudesse reter a água líquida, mas não “esmagar” a vida. O planeta deveria ter também uma atmosfera correta com proporção correta de nitrogênio e oxigênio, e bactérias como a anammox em seus oceanos para agir no ciclo de nitrogênio de lá, e assim controlar a correta composição 3:1 de N2 e O2 de sua atmosfera.

Se bombardeado por vento solar, como talvez o seja, esse planeta deveria também ser constituído da liga perfeita de ferro e níquel, que a nossa Terra “milagrosamente” tem; e as condições de pressão e temperatura de seu interior deveriam ser corretas para que tivéssemos uma esfera sólida de Ni/Fe girando em um manto líquido, criando assim um campo magnético finamente ajustado para desviar esse vento, mortal à vida. Ozônio deveria compor também sua atmosfera, para filtrar os raios UV. Sua rotação deveria ser também bem controlada – não basta girar, precisa girar na velocidade certa – para homogeneizar a temperatura “global” em algo perto de 19ºC. E muito mais seria preciso!

Enfim, são tantas e tantas condições finamente ajustadas e interligadas que a Terra apresenta, que Francis Crick declarou um dia que “homem honestos deveriam concluir que o surgimento da vida (e presumo da Terra) foi ‘quase um milagre’”. Eu, Crick, diria: foi uma “cascata” deles.

Ou seja, foi na onda do desespero total, que já dura décadas, dos discípulos da mediocridade de Sagan, de não se encontrar nada por meio da “superpoderosa” ciência para se servir à mesa do naturalismo filosófico – que previu milhões de terras e milhões e milhões de ETs – que o “Mensageiro Sideral” anunciou seu grande banquete. Nesse banquete, os leitores da Folha, os convidados, se sentaram à mesa, e no cardápio um prato extremamente sofisticado e requintado foi anunciado: “outra Terra”. Mas o garçom abriu a bandeja, e o que nela se servia? Servia-se uma “migalha”: o Kepler 186f.

Na onda ufanista que o Kepler 186f gerou, uma reportagem, agora da revista Veja, trouxe mais outra previsão ufanista e bombástica, novamente feita em nome da ciência. Nela, Elisa Quintana, astrofísica que descobriu o Kepler-186f, disse que “as chances são muito altas e acredito que encontrar vida em outros planetas é apenas questão de tempo”. Acreditar? Usaram o verbo correto aqui: é crença pura, fé naturalista! Gente, pode isso? Décadas monitorando o espaço, com antenas mega-superpoderosas, e sondas espaciais, e ainda não achamos absolutamente nada, nem sequer “gemidos de ET”, e não temos a menor ideia de como o verdadeiro “milagre da vida” ocorreu bem aqui em nosso planeta, o qual habitamos e muito bem investigamos, por séculos, e nada sabemos de como o “milagre da Terra” em que vivemos se viabilizou. Mas, mesmo assim, nessa nossa ignorância, anunciamos sem pudor que vamos achar outros planetas como a Terra e com vida dentro, e logo? Pode?

O fato bruto, evidenciado nos dados e não nas especulações, é que precisamos admitir: a Terra é um planeta pra lá de especial, único, sem igual! Um planeta grande, não em tamanho, que não é documento, mas nas milhares de condições finamente ajustadas que possui para que o milagre da vida pudesse ocorrer aqui. Encontramos um planetinha, o Kepler 186f, que com a Terra só compartilha diâmetro e distância de seu sol, nada mais de semelhança até agora anunciada, mas os “discípulos de Sagan” correm e anunciam que achamos “outra Terra”. E mais ainda: que estamos certos de em breve encontrar mais outras, e nelas muitos ETs. Pode? Chame o Procon! Propaganda enganosa, feita em nome da ciência, e divulgada com amplo destaque na mídia. E ninguém reclama, e todo mundo baixa a cabeça e engole seco esse absurdo? Como pode? A ciência é, como bem disse Richard Feynman, a cultura da dúvida, nunca a cultura da propagação de “certezas ufanistas”!

E aí outro “bispo do naturalismo”, o Tyson, recentemente aparece na “Rede Record do Naturalismo” com a nova série “Cosmos”. Em mais uma continuação da apologia ufanista de Sagan, a dos poderes ilimitados da Ciência, Tyson vai logo anunciando as mesmas “receitas ilusórias” sobre as nossas origens, como se fossem verdades absolutas, fatos mais provados que a gravidade. Tyson não é menos ousado que Sagan e – seguindo seu mestre – anuncia em alto e bom som que a ciência já descobriu tudo sobre as nossas origens. No “banquete de Tyson”, copatrocinado pelo Dr. Kaku, e pelo Hawkings, e pelo Dawkins – só faltam os dados científicos nessa lista –, somos convidados a nos sentar – agora no sofá – e desfrutar do “banquete de dados” sobre as nossas origens. E no cardápio é anunciado que será servida simplesmente a “maternidade da vida”. E o que vemos na bandeja? Vemos outra migalha: uma estrela, uma supernova. E ponto final! Uma estrela servida salpicada com “pó cósmico”, que em nós agora habita, dizem! E toda a galera dos “discípulos de Sagan” e agora os de Tyson aplaude, em pé.

Mas como Tyson pode afirmar isso, em nome da ciência, se nem para as estrelas temos explicações científicas seguras? Estude a teoria do Big Bang e me explique, pois lá eu não encontrei tal explicação, como de uma nuvem em expansão de hidrogênio e hélio foram produzidas grandes massas de altíssima densidade de gás – as inúmeras gerações de estrelas supernovas que aos milhares explodiram – para formar o Tyson? Por flutuações de densidade ou ondas de choques de supernovas? Seriam essas explicações convincentes? Estrelas sendo “invocadas” para gerar estrelas? E como do pó estelar poderíamos gerar planetas rochosos? Por acreção de pedrinhas? E como trazer água para eles? E como gerar vida neles? E como de dino formar canário? Se nem para o dino temos ancestral? Quase nada sabemos, mas o “bispo Tyson” come a “mortadela dos dados” científicos e em seu show televisivo arrota o “caviar das certezas científicas”, servindo o grande banquete naturalista com as migalhas que esse modelo até aqui gerou de dados sólidos e confiáveis.

Outro “banquete de migalhas” foi servido recentemente pelo “Mensageiro Sideral” da Folha no artigo “Química da vida no tubo de ensaio”. Nessa matéria, também com indisfarçável empolgação, o jornalista científico anuncia “grandes achados de simulações de química pré-biótica” realizados por químicos em um tubo de ensaio, os quais “quase produziram vida”. E que esses achados teriam colocado “a ciência um pouco mais perto de decifrar um dos maiores enigmas com que já se deparou: a origem da vida”. Mais enfaticamente, o jornalista científico ainda declara que os achados “podem explicar até a Explosão Cambriana”, grande pedra no sapato da evolução, pois “oceano que faz metabolismo sozinho [...] encurta bastante o caminho para formas de vida, explicando o porquê (da Explosão Cambriana)”.

Mas o que forneceram os experimentos feitos por químicos inteligentes, com moléculas complexas, puras, sintetizadas com todo o refinamento químico de laboratórios, e com conhecimento prévio de quais moléculas adicionar à sopa, pois se partiu da metade do caminho (e só quem conhece o destino final sabe onde a metade do caminho se localiza)? Será que forneceram diversas proteínas funcionais? Pelo menos umas 300 que sabemos hoje são o mínimo necessário para se formar vida? Ou um RNA autorreplicante, que depois colheu do meio os aminoácidos (AA) certos e na sequência certa e expressou algumas proteínas funcionais? Ou um DNA longo, com alguns genes úteis? Ou um coquetel de fosfolipídios para – pelo menos – formar as membranas de dupla camada essenciais à vida? Todos esses químicos inteligentes, todo esse cuidado sintético, toda essa pureza química, todo esse input imenso de informação “prébiotica”, gerou o quê?

Ao lermos o artigo, descobrimos que no “banquete da vida no tubo de ensaio” novamente foi servida “uma migalha”! A molécula mais importante lá formada foi uma ribose-5-fosfato. Apesar de o jornalista “científico” da Folha tê-la classificado como “uma molécula precursora do RNA” – “primo” do DNA” – e de ter ele insinuado que essa molécula teria algo a ver com “processos evolutivos darwinianos”, nós químicos sabemos que isso não é possível, não. Pois a ribose-5-fosfato se trata apenas de um nucleosídeo, ou seja, nem é sequer um nucleotídeo, esse, sim, um bloco fundamental do RNA. Pois na ribose-5-fosfato está faltando uma classe fundamental de moléculas: uma base nitrogenada aromática. E essa falta é crucial e mortal, pois sabemos que essa é a principal restrição na construção “espontânea” dos blocos fundamentais de DNA/RNA. Mortal, pois as condições de síntese de bases nitrogenadas são drasticamente distintas daquelas requeridas para açucares, e vice-versa. E mesmo que um nucleotídeo se formasse – um quase milagre –, sabemos que o difícil mesmo seria ligar os diversos nucleotídeos por ligações polifosfato, ou seja, crescer o polímero do RNA, pois tais ligações são extremamente lentas e só ocorrem com eficiência na vida por meio de sua maquinaria molecular e de suas enzimas, que aceleram em muitas ordens de grandeza a cinética de tais reações. Ferro de catalisador não funciona, não!

A “migalhas” servidas no banquete do naturalismo filosófico e anunciadas no cardápio como: (a) a nossa “maternidade” (as estrelas supernovas salpicadas de “pó cósmico”), (b) a “outra Terra” (o Kepler186f), e “a vida em um tubo de ensaio” (a ribose 5-fosfato).


E mesmo que essas reações tivessem acontecido – um grande milagre –, é certo que nada útil para a vida teria sido gerado ali, pois sabemos que a chance de um RNA qualquer ter incorporado as bases certas (ATGC) e a sequência certa delas para que assim ele pudesse expressar sequer uma única proteína funcional, uma de tamanho relativamente pequeno, uns 150 AA (e a vida exige pelo menos umas 300 dessas), seria um zero absoluto, uma impossibilidade plena, menor que 1/(20)150, e os 20 AA certos, todos homoquirais, excedem todos os recursos probabilísticos deste Universo, mesmo que você espere por bilhões e bilhões de anos para essas reações ocorrerem naquele “tubo de ensaio mágico da vida”. Aqui as “meras cinco horas” não ajudam, não!

Pobre ciência, dominada pelo naturalismo filosófico! Que transforma a “cultura da dúvida” na “ufania de certezas infundadas”. E faminta de dados, se contenta com seus “banquetes de migalhas”.

(Dr. Marcos N. Eberlin, com exclusividade para o blog Criacionismo)

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