sexta-feira, 16 de março de 2012

Por que a educação brasileira é desvalorizada?

Esta semana, o Brasil acompanhou mais uma vez um movimento que se tornou comum. A greve dos professores. Com a paralisação, os educadores exigem melhores salários e condições de trabalho dignas.

Em países como o Japão, os professores recebem os melhores salários. Os japoneses acreditam que sem um professor, não existiriam médicos, advogados, engenheiros ou qualquer outro tipo de profissão.

A Rádio Novo Tempo entrevistou o atual senador e ex- ministro da educação Cristóvão Buarque. Ele falou um pouco sobre a atual situação da educação brasileira e explicou porque a nossa educação é tão desvalorizada.

Rádio NT Um concurso público de uma cidade brasileira oferece as seguintes condições: Enquanto a remuneração inicial oferecida a um operador de escavadeira hidráulica, com ensino fundamental incompleto, é de R$ 1.291,98, o salário para um professor com ensino superior completo é de R$ 1.246,32. Por que a educação no Brasil é tão desvalorizada?

Cristóvam Buarque - Por duas razões, a primeira é cultural, nós somos um povo cuja cultura não dá importância a educação. Uma pessoa no Brasil não é considerada rica por ser culta, não é respeitada por ser culta, ela é respeitada pelo tamanho do carro, pela casa; é uma cultura que foi se criando. Aqui a gente chama até um filósofo de lunático, é outra política. Nós somos um país dividido em dois e resolvemos serviços dos ricos; transporte, saúde, moradia e a educação também. A gente cuida da educação da parcela rica, por isso que as universidades são federais e as escolas de base não

“Nós ( os brasileiros) somos um povo cuja cultura não dá importância a educação. Uma pessoa no Brasil não é considerada rica por ser culta, não é respeitada por ser culta, ela é respeitada pelo tamanho do carro ou pela casa.”

Rádio NT - A desvalorização dos professores acaba prejudicando os alunos, muitos educadores, desmotivados acabam passando um ensino de baixa qualidade …

Cristóvam Buarque -Não tem como atrair os melhores jovens de um país para serem professores sem um bom salário. Não basta um bom salário para ter um bom professor. Se pagar um salário alto, qualquer um vai se candidatar a professor, gente que não gosta de criança, gente sem vocação termina indo para a carreira. Como é que a gente resolve isso? Baixando o salário? Não. Com um critério de seleção que leva em conta a identificação da vocação do candidato

Rádio NT - Constantemente ouvimos falar de notícias sobre alunos que agridem os professores, tanto fisicamente como verbalmente. Porque essa onda crescente de desrespeito e violência na sala de aula?

Cristóvam Buarque - Essa violência das crianças com os professores tem explicações claras. Primeiro a violência geral da sociedade. Os meninos passam o tempo em um videogame de guerra e assistindo no mundo real mesmo assassinatos e mortes. Muitos destes meninos, que agridem os professores, já viram mortes, já viram assassinatos na rua. Segundo é que a escola é uma coisa chata, degradada, que gera raiva nas crianças. As crianças não têm porque gostar de uma escola caindo aos pedaços, uma escola do quadro negro, quando a gente está no tempo do computador. Elas vão ao cinema ver um filme em 3D e chega um professor e desenha um pontinho de giz e diz esse é o sol e desenha outro e diz essa é a terra. A terceira é a diminuição da respeitabilidade ao professor. As crianças sabem que o professor ganha pouco. Num país, quem ganha pouco não é valorizado e eu diria uma quarta razão, é que nós próprios fomos contribuindo para isso, porque como ganhamos pouco, trabalhamos pouco, nos dedicamos pouco, fazemos muitas greves. Então se quebrou o seguimento de solidariedade professor aluno no Brasil

Rádio NT Há pesquisas que constatam que um grande número de professores sofre com problemas de saúde. Isso pode se atribuir a todas essas condições?

Cristóvam Buarque - A essas e a outras. Essa coisa absolutamente maluca de obrigar um professor a dar 8 horas de aula por dia. Isso é um crime. Isso é tratar um professor como escravo. Eu trabalho muito mais de 8 horas, mas é diferente trabalhar aqui 8 horas na atividade administrativa do que dar 8 horas de aula. Eu acho que professor deve trabalhar 8 horas, mas só dar quatro de aula. O resto é orientar aluno, é estudar para se preparar. Oito horas de aula é impossível para as cordas vocais, para as pernas e a tensão? Por isso existem tantos professores de licença.

Rádio NTPesquisas apontam uma baixa procura por cursos voltados para a educação.

O valor do piso salarial dos professores não chega a dois salários mínimos. Como estimular uma pessoa a fazer faculdade e a ingressar numa carreira de educador, quando existem outras oportunidades de estudar menos e ganhar mais?

Cristóvam Buarque - Não existe como estimular. Os pais hoje não querem que os filhos sejam professores. Então como é que a gente resolve isso? A proposta que eu tenho é a gente criar uma carreira federal do magistério. Pagando R$ 9 mil por mês. Fazendo concursos federais para escolher de fato os bons. Pegar esses professores novos desta nova carreira e colocar nas mesmas cidades em escolas federais em prédios bonitos com novos equipamentos, que criança gosta de equipamento; e horário integral. A gente já tem o Colégio Pedro II. Já tem as escolas técnicas, é fazer isso em escala nacional, levaria 20 anos a chegar a todo o Brasil, sem professores por ano ensinam 3 milhões de crianças , em 20 anos chegamos a 60.

Fonte: Novo Tempo

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