sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Bióloga transexual ataca tese de Darwin

Em sua primeira visita ao Brasil, a bióloga americana Joan Roughgarden, 64, professora da Universidade Stanford e referência em estudos sobre homossexualidade no mundo animal, atacou a teoria de seleção sexual de Charles Darwin. Para a cientista, que em 1998 fez uma cirurgia de mudança de sexo e deixou de se chamar Jonathan para virar Joan, Darwin estava “profundamente equivocado” ao descrever padrões rígidos de distinção entre os sexos. O conceito de seleção sexual é um dos componentes da teoria da evolução. Darwin diz que as fêmeas, por gastarem mais tempo e energia com a criação da prole, tendem a ser mais recatadas, escolhendo os parceiros rigidamente, muitas vezes com base em características físicas exageradas - as caudas dos pavões ou os chifres dos veados, por exemplo. Tais traços serviriam, para as fêmeas, como indicador de qualidade genética, enquanto os machos tenderiam a ser mais promíscuos.

Roughgarden se opõe a isso e afirma que não há um padrão rígido de comportamento para machos e fêmeas. Haveria, na realidade, várias gradações entre o feminino e o masculino. Ela cita várias pesquisas indicando que, na natureza, nem mesmo a relação entre macho e fêmea pode ser considerada padrão. “Há mais de 300 espécies de vertebrados com registro de homossexualidade. Um terço dos peixes de recifes de coral pode trocar de sexo durante a vida. A seleção sexual não explica isso”, diz.

No lugar do conceito de Darwin, Roughgarden propõe a teoria de “seleção social”. Além de compreender as várias gradações entre os gêneros, a teoria afirma que, na natureza, é comum haver sexo sem fins reprodutivos. Como exemplo, ela cita os bonobos, primatas africanos que usam sexo como forma de integração e interação social, além de outros bichos.

Lançado há um ano, seu último livro, The Genial Gene, aprofunda as críticas. Um dos principais alvos é o zoólogo Richard Dawkins, ex-professor da Universidade de Oxford e defensor da visão darwinista clássica. Para a bióloga, Dawkins e outros dão peso excessivo à competição no processo evolutivo. Ela acusa as universidades britânicas de ignorar qualquer indício de erros na teoria da seleção sexual.

“Charles Darwin é um herói nacional. Por isso, admitir que existe uma falha no seu raciocínio tem um significado enorme. É como se estivessem desmoralizando a nação”, afirmou.

(Folha de S. Paulo, 11/11/2010)

Nota: Charles Darwin é mais que um herói nacional britânico; para muito darwinistas, ele é o maior cientista de todos os tempos – e ouse criticá-lo em público pra ver só! Imagino que as conclusões de Roughgarden se devam também à sua subjetividade comportamental/sexual. Isso é mais uma evidência de que cientistas não são máquinas objetivas. A posição da cientista também ajuda a evidenciar o fato de que o darwinismo não é unanimidade científica e que as críticas a essa hipótese não são levantadas apenas por criacionistas. Ainda segundo a matéria da Folha, além da homossexualidade, a relação da religião com a biologia também é um dos objetos de estudo de Roughgarden. Em 2006, a pesquisadora lançou um livro em que defende a compatibilidade entre a teoria da evolução e a fé cristã. Essa suposta compatibilidade entre darwinismo e religião é o “canto da sereia pragmático para engabelar os de subjetividades religiosas”, na definição do coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente, Enézio E. de Almeida Filho. Conforme lembra Enézio, St. George Jackson Mivart (personagem de sua dissertação de mestrado em História da Ciência), um dos maiores críticos científicos do papel da seleção natural na origem das espécies, foi expulso do círculo íntimo de Darwin e da comunidade científica (Thomas Huxley e Joseph Hooker fizeram de tudo para que Mivart não fosse aceito nas organizações científicas) impedindo, assim, seu avanço acadêmico justamente por, como evolucionista, promover a compatibilidade da evolução com a religião.[Michelson Borges]

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