quarta-feira, 2 de junho de 2010

Futuro da química

Por Fabio Reynol, de Águas de Lindóia

Agência FAPESP – Como desenvolver a química de maneira sustentável para o Brasil e para o mundo? A questão esteve no centro das discussões da 33ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), realizada de 28 a 31 de maio em Águas de Lindoia (SP) e que teve participação da FAPESP como expositora.

“A química sustentável é o principal desafio atual, especialmente no ensino superior, mas a criação da cultura da sustentabilidade vai além dos currículos. Antes dos químicos, precisamos formar cidadãos”, disse César Zucco, novo presidente da SBQ, à Agência FAPESP.

Pesquisadores presentes na Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Química destacam os desafios que o desenvolvimento sustentável impõe ao setor (foto: SBQ)

Zucco, que é professor na Universidade Fedederal de Santa Catarina (UFSC), admite, no entanto, que muitos formadores atuais na área não se preocupam com a sustentabilidade, uma questão que, para ele, não pode ser ignorada, “especialmente na química, por ser uma disciplina que permeia muitas outras áreas do conhecimento”.

“Estamos muito atrasados nesse aspecto, precisaríamos ter inserido os problemas de sustentabilidade há muito tempo no interior da universidade”, disse.

A fim de mudar esse quadro, a SBQ prepara diversas ações de divulgação, entre elas algumas relacionadas ao Ano Internacional da Sustentabilidade, declarado pela Organização das Nações Unidas para 2011.

Para Zucco, será uma oportunidade para levar a química aos profissionais da área, às escolas e ao cidadão comum. “Começaremos nos fóruns dos estudantes de graduação e de pós-graduação no fim de 2010”, disse.

O presidente da SBQ considera os fóruns espaços privilegiados para que estudantes e coordenadores dos cursos repensem currículos, culturas e modos de atuação envolvidos no ensino de química.

O tema da sustentabilidade permeou a reunião da sociedade, como na conferência “Química ambiental: entre o futuro desejável e o possível”, de Arnaldo Alves Cardoso, professor do Instituto de Química de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

“Desde 1980, o mundo excedeu sua capacidade regenerativa. Estamos tirando mais do que o planeta tem condições de oferecer”, disse Cardoso, referindo-se ao elevado aumento nos padrões de consumo em todo o mundo.

O enriquecimento das populações aumenta o consumo de alimentos, entre os quais a carne bovina. Segundo Cardoso, para cada quilo produzido desse tipo de carne produzido são gastos 7 quilos de grãos. Além disso, as criações bovinas ocupam um espaço 50 vezes maior do que o necessário para a produção de grãos.

“E quando uma pessoa melhora seu padrão de consumo, ela diminui o consumo de frango e aumenta o de carne bovina, por exemplo”, disse o professor da Unesp, para quem a química pode ajudar em vários aspectos a sustentabilidade.

O desenvolvimento de fertilizantes inteligentes que só liberam nitrogênio sob demanda da planta, a elaboração de processos de tratamento de esgoto mais eficientes, a descoberta de fontes de energia que não envolvam combustão, a redução de emissões de compostos orgânicos voláteis e a revisão do ensino da química são algumas constribuições importantes dos químicos, segundo Cardoso.

Novos combustíveis

No simpósio “A visão da química no Brasil de 2025”, Eduardo Falabella Sousa-Aguiar, pesquisador do Centro de Pesquisas da Petrobras, no Rio de Janeiro, falou sobre as vantagens do dimetil-éter (DME) como combustível.

Derivado do petróleo, o DME é um gás não agressivo à camada de ozônio e pode ser utilizado como substituto tanto do óleo diesel como do gás liquefeito do petróleo (GLP).

Falabella explica que, por não possuir ligação entre carbonos, a queima do DME é limpa, não gerando fuligem como o diesel. Além disso, é superior ao combustível líquido em desempenho e não depende de alterações nas câmaras de combustão dos motores diesel para funcionar, mas somente nos acessórios para se adaptar ao gás.

Segundo o pesquisador, em 15 anos o DME poderá estar pronto para ser produzido em vários países por meio de processos industriais economicamente viáveis. Japão, China e Coreia do Sul têm plantas produtoras de DME em pequena escala.

No mesmo simpósio, Cláudio José de Araújo Mota, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, expôs os desafios que a química encontra na área de energia.

Segundo ele, daqui a 15 anos vários países serão capazes de produzir etanol a partir da celulose, a chamada terceira geração de biocombustível. Mota também acredita que será importante a conversão do etanol para ser usado no lugar do querosene de aviação.

“Trata-se de um combustível que deve obedecer a rigorosos padrões, como o de não congelar quando submetido às baixas temperaturas encontradas em grandes altitudes”, disse.

Para o professor da UFRJ, a captura de dióxido de carbono deverá ser um ramo promissor da química nos próximos anos. “A conversão de dióxido de carbono em polímeros, por exemplo, será valorizada. Se eu fosse começar a minha carreira na química, hoje, pensaria com carinho nesse setor”, apontou.

Nanomateriais e química verde

Henrique Toma, professor do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), falou na sessão temática sobre química verde a respeito do papel da nanotecnologia no desenvolvimento sustentável.

Segundo ele, nanomateriais inseridos na borracha de pneus ou na composição de novos materiais, por exemplo, estão reduzindo a energia gasta nos processos de produção e ainda ajudam a reduzir os descartes.

“As nanopartículas podem se acoplar a enzimas e moléculas a fim de gerar materiais com novas propriedades, fabricados por processos mais limpos e eficientes do que os atuais”, disse.

Como exemplo, Toma apresentou um nanocompósito usado como matéria-prima de autopeças, que se mostrou capaz de reduzir em 70% o peso do produto e também a energia empregada em sua fabricação.

Do mesmo modo, membranas nanométricas têm sido usadas na indústria petroquímica para aprimorar a separação de propano e propileno, um processo que, no modelo convencional, utiliza grandes torres e é muito mais dispendioso.

Uma das áreas mais recentes da química, a dos produtos extraídos da natureza, também foi destaque no encontro. Raymond Andersen, do Departamento de Química da Columbia Britânica, no Canadá, expôs seus trabalhos de coleta de extratos de esponjas marinhas encontradas no mar do Caribe e na região tropical do Pacífico, com potencial de aplicação no tratamento do diabetes.

“Cerca de 15 mil novos produtos surgiram a partir do mar”, disse o pesquisador, para quem os oceanos contêm uma valiosa biblioteca de substâncias úteis para as mais variadas áreas.

A química de produtos naturais tem crescido de maneira expressiva no Brasil, segundo levantamento feito por Maysa Furlan, professora do Instituto de Química da Unesp, que identificou 125 grupos de pesquisa ligados a essa área atuando em instituições brasileiras de pesquisa.

A maior parte (28) está no Estado de São Paulo, seguido do Rio de Janeiro (15 grupos) e dos Estados de Minas Gerais, Paraná e Amazonas, com dez grupos de pesquisa cada um.

“A presença desses grupos no Amazonas é uma boa notícia para o país”, disse a professora, destacando a região Amazônica como uma das mais importantes fontes de substâncias naturais no mundo.

Nova diretoria da SBQ

Realizada no encerramento da reunião anual, a assembleia geral da Sociedade Brasileira de Química marcou a posse da nova diretoria da entidade, referente à gestão 2010-2012.

Zucco, o novo presidente, é licenciado em química pela Fundação Universidade Regional de Blumenau, mestre em físico-química pela UFSC, doutor em química orgânica pela Universidade de Glasgow (Escócia) e pós-doutor nessa mesma área pela Universidade da Califórnia em Santa Barbara, Estados Unidos. Também é diretor de Pesquisa Científica e Tecnológica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Santa Catarina (Fapesc).

Vitor Francisco Ferreira, professor da Universidade Federal Fluminense, é o novo vice-presidente da SBQ. Para o cargo de secretário geral foi eleito Adriano Defini Andricopulo, professor do Instituto de Física de São Carlos da USP.

Hugo Tubal Schmitz Braibant (Universidade Federal de Santa Maria) ocupará o cargo de primeiro secretário, ao lado de Cláudia Moraes de Rezende (Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ), como tesoureira, e Marília Oliveira Goulart (Universidade Federal de Alagoas), como primeira tesoureira.

Membros do conselho consultivo eleitos: Luiz Henrique Catalani (USP), Fernando Galembeck (Universidade Estadual de Campinas), Vanderlan da Silva Bolzani (Unesp), Jailson de Andrade (Universidade Federal da Bahia), Eliezer de Lacerda Barreiro (UFRJ), Norberto Peporine Lopes (USP), Heloisa de Oliveira Beraldo (Universidade Federal de Minas Gerais), Hans Viertler (USP), Adley Forti Rubira (Universidade Estadual de Maringá), Raimundo Braz Filho (Universidade Estadual do Norte Fluminense), Alfredo Mayal Simas (Universidade Federal de Pernambuco) e Oswaldo Antonio Serra (USP).

Mais informações: www.sbq.org.br

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NOTA DESTE BLOGGER:

Quer saber mais sobre a vida? Pergunte a um químico. Ele sabe muito mais sobre isso do que um biólogo.


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