quinta-feira, 15 de abril de 2010

Especialistas discutem crença do brasileiro em Darwin e na criação de Deus


O jornal Folha de S. Paulo publicou, no dia 2 de abril, os dados da pesquisa Datafolha que revelam o que o povo brasileiro pensa sobre a origem da humanidade. Para 59% dos 4.158 entrevistados, “os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas com Deus guiando esse processo de evolução”. Uma parcela menor (25%) acredita que “Deus criou os seres humanos de uma só vez praticamente do jeito que são hoje, em algum momento nos últimos dez mil anos”. Apenas 8% acreditam que “os seres humanos se desenvolveram ao longo de milhões de anos a partir de formas menos evoluídas de vida, mas sem a participação de Deus nesse processo”.
O portal CNTN buscou a opinião de três pessoas – um darwinista, um teórico do design inteligente e um criacionista – que analisaram os números da pesquisa.
O darwinista é o repórter da Folha de S. Paulo Reinaldo José Lopes, autor do livro Além de Darwin (Editora Globo). Para ele, “é preciso cautela na avaliação do que os números do Datafolha significam, porque falta muito contexto para a pesquisa”. Lopes considera que não seja possível saber exatamente o que as pessoas quiseram dizer com a resposta que deram. “Não acho que podemos assumir, por exemplo, que isso tenha a ver com uma maior alfabetização científica dos brasileiros em relação aos americanos. Acho que talvez seja sintomático de uma visão mais conciliadora de mundo da maioria (os 59%) e, ao mesmo tempo, de uma perspectiva religiosa cristã tradicional nesse núcleo de 25%”, explica.
Lopes entende que esse grande percentual de darwinistas teístas no Brasil se deva a três fatores: (1) o peso do catolicismo, em que há menos oposição declarada à teoria da evolução; (2) influência um pouco menor, mas considerável, do espiritismo, mesmo em setores católicos e de outras confissões cristãs, uma doutrina que é simpática à ideia da “evolução guiada por Deus”; (3) o fato de os fiéis brasileiros serem, em média, menos “rígidos” doutrinariamente que os cristãos americanos, e até menos atentos aos problemas teológicos que um mundo a la Darwin coloca para o cristianismo mais tradicional.
O jornalista da Folha entende que o fato de o jornal também ter publicado o artigo de um criacionista abre a “possibilidade de abordar o criacionismo de forma a entender melhor o movimento, a lógica dele, de dialogar com ele e não simplesmente condená-lo como desonesto e/ou mal intencionado”.
Lopes, que é católico, está entre aqueles que consideram o darwinismo e a crença em Deus perfeitamente conciliáveis. E faz uma ressalva: “Não sou teólogo, mas me parece claro que os trechos da Escritura que parecem incompatíveis com um Cosmos em evolução têm seu conteúdo influenciado pela cultura dos autores sagrados naquele momento histórico. Seria necessário, portanto, reler teologicamente essas passagens conservando o essencial e superando essas dificuldades, sempre com Cristo no centro de qualquer interpretação.”
Design inteligente - O mestre e doutorando em História da Ciência Enézio de Almeida Filho é mais contundente ao afirmar que a mistura entre Deus e darwinismo é “bagunça epistêmica”: “Embora o Brasil seja considerado uma nação cristã (seja lá o que isso signifique – não leio esses sinais no seu povo e nem tampouco nos seus líderes políticos), os 59% de teístas evolucionistas representam uma religiosidade a la Macunaíma: diluíram a onipotência tanto de Deus quanto da seleção natural, o mecanismo evolutivo par excellence de Darwin. Na verdade, esse grupo pode ser classificado como deísta. Os 25% são criacionistas teístas, e sua minoria na pesquisa Datafolha revela um aspecto religioso surpreendente: as comunidades religiosas estão falhando no ensino de suas crenças mais basilares.”
Enézio é coordenador do Núcleo Brasileiro de Design Inteligente e mantém o blog Desafiando a Nomenklatura Científica. Para ele, a grande quantidade de darwinistas teístas no Brasil se deve ao “jeitinho brasileiro”. “[O indivíduo] acende uma vela para Deus e outra para o Diabo, oops, para Darwin. Vai que Deus existe? É preciso se garantir na outra dimensão. E se Darwin estiver certo? É preciso se garantir nesta dimensão. Um estudo sociológico mostraria ser isso mais uma face do famoso jeitinho brasileiro”, ironiza.
Diferentemente de Lopes, Enézio considera impossível a mistura de religião com darwinismo. E explica: “O darwinismo é uma doutrina estritamente materialista: não há lugar para Deus nem como motorista da evolução. E aqui precisamos lembrar a afirmação de Darwin: se sua teoria precisasse de ajuda externa (leia-se Deus), ela seria considerada bulshit (algo como titica de galinha). O processo evolutivo não precisa de Deus.” E completa: “Não sei como a ciência e a religião vão se entender nessa questão. São áreas completamente antípodas, e o cientista e o religioso que dizem serem Darwin e Deus compatíveis são desonestos, pois estão em descompasso com a verdade científica e religiosa.”
Para o ex-ateu e blogueiro, o que se pode depreender da pesquisa Datafolha é que os crentes em Deus e em Darwin “falharam fragorosamente no ensino de seus dogmas”.
Criacionistas - Tarcísio Vieira é biólogo e mestre em química pela Universidade de Brasília. Membro da Sociedade Criacionista Brasileira, ele chama atenção para o grupo dos 25% dos entrevistados que acreditam numa criação realizada há cerca de dez mil anos, na qual os seres humanos (e provavelmente as demais formas de vida) eram idênticos aos atuais. “Esse dado revela o grande desconhecimento de muitas pessoas com relação às evidencias científicas elementares, tais como as modificações sofridas por determinada população em função de condições geográficas, ecológicas, etc., bem como de textos bíblicos elementares, os quais nos chamam a atenção para tais transformações”, explica o biólogo. Segundo ele, a parcela da população representada por esses 25% é caracterizada como fixista, “e em hipótese alguma representa o pensamento bíblico-criacionista, o qual afirma que as modificações, dentro de certos limites pré-estabelecidos pelo Criador, permitem aos seres vivos a adaptabilidade necessária ao ambiente em que vivem”.
Em outras palavras, na análise de Tarcísio, os percentuais obtidos na pesquisa evidenciam que, além da existência de total desconhecimento, independentemente de qual cosmovisão se adote, com relação às argumentações evolucionistas e criacionistas, há a necessidade de mais informações bem como de debates sobre as argumentações propostas pelos simpatizantes do evolucionismo e do criacionismo.
Ainda segundo o biólogo, diferentemente do que ocorre em outros países, “os brasileiros têm acesso apenas a informações (ou desinformações) advindas da mídia que, infelizmente, ainda se faz, na maioria das vezes, tendenciosa, desinformada e imparcial”. E compara: “Enquanto em outros países como Estados Unidos, Alemanha e Austrália as opiniões são mais polarizadas – as pessoas se denominam evolucionistas (darwinistas) ou criacionistas (teístas) –, em nosso país, há grande confusão e desconhecimento com relação ao assunto.”
Quanto à conciliação entre darwinismo e religião, Tarcísio é tão enfático quanto Enézio: a mistura é impossível. “O pensamento darwinista exclui a existência do Criador, argumentando que o universo e a vida são resultantes apenas da ação das leis naturais, no transcorrer de longos períodos de tempo. Já o pensamento bíblico-criacionista argumenta que o universo e a vida são resultantes da ação direta do Criador, o qual, durante uma semana literal, estabeleceu as condições para que a vida se manifestasse na forma como a conhecemos na Terra. Enquanto o darwinismo concentra suas argumentações no acaso, o criacionismo argumenta a favor de planejamento nas coisas que foram criadas. Diante dessas e outras nítidas diferenças, entendo que o darwinismo e o criacionismo não são conciliáveis.”

Michelson Borges

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